sexta-feira, 15 de junho de 2018

Se é para falar de Mulher(es)...



(Texto em homenagem ao Dia Internacional da Mulher para os meus alunos(as) do 6º ao 9º ano)

Durante muitos anos as mulheres não tinham autorização para falar em público, nem usar calça. Ops! Estou fazendo as duas coisas agora! Muitas mulheres mesmo com talento para o estudo não podiam estudar, eram proibidas ou quando iam para a escola aprendiam afazeres domésticos, pequenas contas para ajudar na feira, ler e assinar o nome, por exemplo. Escrever e publicar livros era “coisa de homem”. Estas situações parecem que aconteceram a muito tempo atrás, mas mesmo assim hoje, ainda vemos práticas iguais, seja quando ensinamos as filhas a limpar a casa, enquanto deixamos os filhos brincando na rua. Seja quando a gente acha que o único papel da mulher no mundo é cuidar da família e ter filhos, seja quando a gente acha que menina tem que ter um comportamento diferente de menino. Seja quando assistimos ao noticiário e vemos que uma menina de 13 anos tomou um tiro na cabeça, porque desobedeceu ao sistema político e religioso de um país e foi para a escola. Isto aconteceu com Malala,  no Paquistão, em 9 de outubro de 2012.
Hoje eu falarei de mulheres que foram e/são importantes para o seu tempo, mas que sofreram preconceito. A primeira delas viveu na Inglaterra no século XVIII, aquele tempo dos saiões, ela era uma das duas filhas de um casal com 8 filhos , aprendeu a ler e a escrever e escrevia romances em que as mulheres, as heroínas da história escolhiam seus maridos. Naquela época mulher não escolhia com quem iria se casar , seu pai ou irmão mais velho escolhia. Como alguém pode escolher para o outro alguém para amar?  O nome desta senhorita era Jane Austen. Ela morreu aos 41 anos de idade, solteira e sem filhos.
Um século depois no Brasil, sabemos da história de uma mulher guerreira que nasceu no Rio Grande do norte , foi obrigada a casar aos 13 anos de idade, mas terminou fugindo do marido e voltando para a casa dos pais. Um tempo depois, ela se mudou para o Recife, seu pai foi assassinado e ela precisou trabalhar para sustentar a mãe e os irmãos.  Conheceu o seu novo marido, teve três filhos, ficou viúva quando o rapaz tinha 25 anos de idade. Ela aprendeu outras línguas, traduziu livros estrangeiros , sendo que traduziu um dos livros mais importantes para o feminismo e se tornou a primeira feminista do Brasil. No Rio de janeiro ela fundou uma escola só para meninas, nesta escola as meninas aprendiam as mesmas matérias que os meninos aprendiam, porque ela acreditava, assim como eu ,que a educação torna as mulheres cidadãs.   O nome dela era Nísia Floresta Augusta Brasileira.
Assim como Jane Austen existiu no Brasil uma escritora negra, catadora de lixo (papéis) , moradora de uma favela  em São Paulo, mãe de três filhos. Ela escrevia o seu dia-a-dia em cadernos que encontrava pela rua. Com uma linguagem simples ela escreveu histórias, poemas mostrando o preconceito que enfrentava, a falta de dinheiro e comida para os filhos. Seu livro mais famoso: “Quarto de Despejo” foi publicado por um editor que lhe pagou pelos direitos autorais, bem menos do que merecia. Ela se chamava Maria Carolina de Jesus morreu aos 62 anos de idade.
Mais adiante ,em uma época mais recente no Brasil, uma outra Maria nasceu. Ela  foi quase assassinada pelo marido, não morreu, mas ficou paraplégica, em cadeira de rodas. Depois deste episódio ela lutou para que seu ex-marido fosse condenado pela justiça e conseguiu. Hoje ela luta em defesa dos direitos das mulheres, seu nome é Maria da penha e em 2006 deu nome a lei que protege as mulheres da violência e pune os seus agressores. Agressores que infelizmente avançam sobre as mulheres seja no trato verbal dizendo o quanto elas são “burras, incapazes e feias”, ou quando praticam violências que levam à morte, como por exemplo, o desaparecimento de Eliza Samudio ou o caso do gari em Salvador que deixava a esposa acorrentada a cama sem água e comida.
Além dessas mulheres existem aquelas que não têm nome em lei,  não escreveram nenhum livro, nem podem ser consideradas as fundadoras do movimento feminista no Brasil. São as mulheres que convivem conosco o tempo inteiro nossas mães, irmãs, tias, madrinhas , avós, amigas, namoradas, esposas. No ano passado, pedi que os alunos do nono ano escrevessem sobre alguém que eles tivessem admiração.  Recebi uns três a quatro textos de alunos que escreveram sobre as suas mães, sobre o trabalho delas em criá-los, de como elas incentivavam os seus estudos, de como sustentavam a casa, no Brasil quantas mulheres fazem isso? São as mulheres que economicamente sustentam este país, os dados estatísticos comprovam o poder feminino no trabalho formal e informal, mesmo recebendo menos que os homens nos mesmos cargos. Então, cada um aqui tem uma mulher que admira e que deseja seguir os passos. É o caso da minha mãe que saiu de casa aos 12 anos para estudar, porque na cidadezinha em que nasceu não havia escola,  durante um tempo foi empregada doméstica na casa dos irmãos mais velhos, mas concluiu o ensino médio, se  tornou técnica em contabilidade , passou  a trabalhar em escritório. Quando eu nasci fez a opção de deixar de trabalhar para os outros – quantas fazem isto, não é? – e começou a trabalhar por conta própria. Hoje é microempreendedora individual como tantas outras mulheres no Brasil. Eu e minha irmã crescemos ouvindo de minha mãe a seguinte frase : “O melhor marido que a mulher tem é um emprego.”  Ela sempre nos estimulou a ser independentes financeiramente e a estudar. Ela nunca leu nenhum livro sobre o feminismo. Mas, ela é feminista, porque quando você luta pela igualdade das mulheres, luta  pelo acesso delas  a educação, a saúde, a um emprego ou luta para que não sintam preconceito de qualquer natureza, ou quando questionam quando alguém diz : “só podia ser mulher, é barbeira”.  Isto é lutar, isto é “fazer feminismo” , isto é ser feminista na prática. E, este é o melhor dos feminismos.  Este é feminismo que defendo na sala de aula ,porque desejo que nossas alunas sejam conscientes do seu poder, não se sintam obrigadas viver relacionamentos abusivos com namorados que ao invés de incentivar o seu progresso, só dizem: “você vai fazer isto para quê?”. Então, é isto.  Meninas de hoje, mulheres de amanhã deem valor as nossas conquistas, casem se quiserem, tenham filhos se quiserem, mas estudem e trabalhem porque não existe nada melhor do mundo do que “ser dona do seu nariz”.
Antes os cientistas diziam que as mulheres têm o cérebro menor, por isso não podiam fazer isto ou aquilo. Hoje, sabemos como isto é um engano, porque podemos fazer tudo o que quisermos e o dia-a-dia está aí para comprovar.

Naiana P. de Freitas, 06 de março de 2018.


domingo, 30 de julho de 2017

Anne Frank, seu diário e Eu.

De repente você começa a ler um livro cujo enredo já foi exaustivamente explorado por todos os ângulos, mas à medida que a leitura avança você vai perdendo a resistência, o preconceito e se deixa surpreender. Este caso ocorreu com o gasto e o desgastado enredo do Diário de Anne Frank (2013). Há algum tempo comprei o livro e o deixei morando na minha estante por um longo tempo... Eis que um dia, o puxei de lá e comecei a ler... Assim, sem pretensão alguma.  De Súbito, a garota Anne Frank que iniciou aos 13 anos a trajetória do seu diário agiganta-se com a sua escrita madura, para uma garota tão jovem, o seu senso crítico, a sua lucidez literária com metáforas bem elaboradas para a faixa etária, o bom humor diante a adversidade, os  anseios  futuros de uma adolescente, o desejo de não ter apenas filhos e marido para se preocupar na vida, o detalhamento da situação de guerra, a descrição do confinamento das oito pessoas no anexo, sua tendência em contemplar a natureza  e principalmente a sua capacidade consciente e intensa de leitora.
Ela inicia os relatos afirmando que “o papel tem mais paciência do que as pessoas.” (FRANK, 2013, p.19) e tal afirmativa já justifica o porquê de escrever um diário. Quem já escreveu ou escreve em diários sabe bem o que tal sentença significa. Logo, fui levada a criar um pacto secreto com a menina, já que me identifiquei e a Naiana da adolescência foi cutucada lá nas gavetas da minha memória. Então, exclamei:- ehhh, sempre pensei nisso!. Por isso escrevi durante tanto tempo em diários, papéis avulsos, agendas... Depois, descobri que a Anne Frank era uma geminiana que se define dividida em duas: Uma leviana e alegre e outra profunda e quieta. Enquanto a primeira estava sempre à tona, distraindo e infernizando os demais a segunda vivia soturna, sufocada pela vida superficial da primeira, emocionalmente mais frágil, por isso só de relance chegava ao conhecimento de todos. Como nos diz:
Como já disse muitas vezes, sou partida em duas: um lado contém minha exuberância, minha petulância, minha alegria da vida, e, acima de tudo, minha capacidade de apreciar o lado mais leve das coisas [...] Meu lado mais leve, mais superficial, vai sempre tirar vantagem do meu lado mais profundo, e com isso vencerá sempre. (FRANK, 2013,368).
Esta reflexão aos 15 anos de idade me fez lembrar o meu outro autor preferido geminiano, Fernando Pessoa, que soube fazer da sua loucura um alimento literário... E, tal associação me fez refletir sobre a minha personalidade de geminiana, mesmo que eu tenha optado em dar vazão a meu lado quieto e profundo e talvez deixando meu lado leviano e alegre aparecer no meu eu professora-fotógrafa. (RSRSRS). Ainda sobre a sua personalidade, ela  admite que ser honesta consigo mesmo é o que lhe faz se sentir melhor. Logo, ela se sente à vontade para escrever comentários para as pessoas do anexo, como este: “Gente estúpida geralmente não pode suportar quando os outros fazem alguma coisa melhor do que ela.” (Frank, 2013, 348). Sentença perfeita e contemporânea!
Para não alongar ainda mais este texto, cuja a primeira intenção era escrever sobre a Anne Frank leitora e acabou se tornando um texto sobre mim, vou finalizar sinalizando as duas características que ainda me fazem falar sobre mim: a leitora e a amante da natureza.  No aniversário que ganhou o diário, recebeu de presente dois livros: Dutch Sagas and Legends,  o volume II(e  ela trocou pelo volume I),e Daisy Goes to the mountain. A partir daí o que se vê é uma leitora compulsiva por livros, amante da história que é impedida pelos pais de realizar a leitura de alguns títulos considerados proibidos para a sua faixa etária. E, mesmo confinada no anexo, realizava as suas leituras diárias, escutava a leitura do pai de Goethe e Shiller, e mantinha sua leitura sempre atualizada devido à possibilidade de poder ler livros da biblioteca trazidos pelos seus protetores. O volume de leitura era bastante intenso, bem como o de estudo, como ela afirmava que estudar era uma espécie de “matador de tempo”. Contabilizei vários títulos que vão desde a leitura da Bíblia até um livro proibido cujo título é sugestivo chamado: Gentlemen, wives and servants.
Talvez contemplar a natureza em momentos tão críticos como os que ela vivia tenha sido uma forma de escapismo, que funcionava bem juntamente com o ato de estudar. Hoje, em proporções menores, pois não vivemos uma guerra declarada, a natureza para mim surge como uma válvula de escape diante desse nosso Brasil, planeta. Então, ao “[...]olhar o céu, as nuvens, a lua e as estrelas realmente faz com que eu me sinta calma e esperançosa. É um remédio muito melhor do que valeriana ou brometo. A natureza faz com que eu me sinta humilde e pronta para enfrentar cada golpe com coragem.” (FRANK, 2013, p.350)...
Suspeito que a impressão delineada aqui, poderia se tornar algo mais robusto, com mais cara e força acadêmica... Mas, mesmo parecendo que esta era a intenção , o objetivo de ter iniciado esta escrita foi a sensação de reconhecimento , e como alguém já afirmou a literatura é reconhecimento, é aquela vida paralela a sua que de repente se alinha a sua e lhe diz com violência: -Mãos ao alto, o que você é agora, depois de mim?

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Trad. Ivanir Alves Calado.Rio de Janeiro: Best Bolso, 2013.
Naiana Pereira de Freitas, junho de 2017.