sábado, 20 de dezembro de 2008

Ela e o navegante

( esta foto é minha tirei no subúrbio de SSa)
Ela e o navegante





Somente ela via aquele homem. Somente ela. Aquele sujeito do gênero masculino, por fora igual a todos os outros: duas pernas, dois braços, de vez em quando barba na cara, pêlos sob a pele do corpo inteiro. Igual a toda espécie humana. O andar calmo, olhos serenos que procuravam também outros olhos que refletissem uma paz branda e suave, olhos como os dela talvez. Ele tinha uns pés grandes, mãos grandes que poderiam em um só movimento percorrer todo o seu corpo, normalmente tão frio, gelado. Mãos que transbordavam de desejo de tocar em uma pele macia. A pele elevava-se em minúsculos montes, arrepiava-se com aqueles sussurros cheios de entusiasmo. Dentro dele encontrava-se um mar não explorado. Ele pouco falava sobre os sentimentos, ou desejos que o envolviam. Pouco. Um breve murmúrio, vez ou outra, ecoava no espaço transformando-se em música em um ritmo frenético, violento e ao mesmo tempo pacificador.Somente ela entendia. Somente ela. Enquanto calado ficava com atenção ouvia o dia-a-dia e as besteiras femininas: dieta, dores, roupas,cores, desejos. Ele por instantes distraía-se daquela conversa e navegava por seu mar interior.E, como uma desculpa secreta, aproximava os seus lábios nos dela gerando uma enorme surpresa. De repente, eles retomavam a conversa a partir de um início velho remetido para um presente constantemente. Além de olhos atentos, cansados, olhos de saudade, que se abriam sugando-a para o mundo dele. Mundo vasto, vivido, experimentado. Ele possuía um imenso baú de manias não reveladas e outras tantas percebidas. Ele e o riso franco, os dentes em perfeita harmonia, voz máscula que em gemidos enchiam-na de prazer. Nele havia um sentimento paternal adormecido, talvez ela o acordara sem uma percepção clara disto. Ele um navegante solitário. Abordo apenas um pequeno espaço para intrometimentos de uma provável alma feminina, uma fresta para a passagem de um pequeno corpo, delgado que soubesse nadar em sua inquieta correnteza. Era um risco afogar-se em suas águas intrínsecas, era um risco afogar-se em amor. Difícil encontrar aquela rota secreta...Somente ela observava aquele navegador e sentia aquele pulso estremecido, aquele corpo quente e abafado. Ele com os seus olhos de saudades procurava um jovem caminho no mar, um caminho que proporcionasse aos dois uma fuga... Fuga para uma terra distante, sem relógios, esperas e convenções. Ele olhando o mar a sua frente, o vento rodopiando feliz em volta daqueles seres. Ela, no entanto, ainda não acordara do sono, da noite tranquila. Deitada inerte respirando desejos saborosos acompanhados de feixes rosas de luz. Somente ela via aquele homem, aquela cena, aquele sentimento. Ele por sua vez, refletia com seus olhos de saudade o amor dentro dele. Somente ela e o navegante. Só para eles ambos existiam.E o  horizonte sempre a procurar.

Um comentário:

  1. É Nai, gostei desse. Mas preciso dar mais uma lidinha pra ter certeza se esse cara existe ou não. Será essa minha dúvida falta total de sensibilidade?
    De qualquer modo, muito instigante e envolve-nos até o final.
    Abraços!
    Adivinha de quem!!!!

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Obrigada!!!