terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

CRÔNICA SOCIAL-CLARICE LISPECTOR

Era um almoço de senhoras. Não só a anfitrioa como cada convidada parecia estar satisfeita por tudo estar saindo bem. Como se houvesse sempre o perigo de subitamente revelar-se que aquela realidade de garçons mudos, de flores e de elegância estava um pouco acima delas - não por condição social, apenas isso: acima delas. Talvez acima do fato de serem simplesmente mulher e não apenas senhoras. Se todas tinham direito a esse ambiente, pareciam no entanto recear o momento da gafe. Gafe é a hora em que certa realidade se revela.
*
O almoço estava bem servido, inteiramente longe da idéia de cozinha: antes da chegada das convidadas haviam sido retirados todos os andaimes.
*
O que não impediu que cada uma tivesse que perdoar um pequeno detalhe, a bem dessa entidade: o almoço. O detalhe a perdoar de certa mente no seu penteado, o que lhe dava um desses sobressaltos que pressagiam catástrofe. Havia dois garçons. O que servia esta senhora ficou-lhe invisível o tempo todo. E não se acredita que ele tivesse visto o rosto dessa senhora. Sem a possibilidade de se conhecerem jamais, suas relações se estabeleciam através de periódicos toques no penteado. E ele sentia. Através do penteado sentia-se aos poucos odiado e ele mesmo começou a sentir cólera.
*
Supõe-se que cada conviva teve sua pequena veia de sangue no meio do grande almoço. Cada uma deve ter tido, por um momento ao menos, esse aviso urgente e pungente de um penteado que pode desabar - precipitando o almoço em desastre.
*
A anfitrioa usava de uma ligeira autoridade que não lhe ficasse mal. Às vezes, porém, esqueça que a observavam e tomava expressões um pouco surpreendentes. Como seja, um ar de cansaço excitado e de decepção. Os então como em certo momento - que pensamento vago e angustiado passou-lhe pela cabeça? - olhou inteiramente ausente a vizinha da direita que lhe falava. A vizinha lhe disse: "A paisagem lá é soberba!" E a anfitrioa, com um tom de ânsia, sonho e doçura, respondeu pressurosa:
*
- Pois é... é mesmo... não é?
*
Quem dentre todas aproveitou melhor foi a senhora X, convidada da honra que, sempre convidadíssima por todos, já reduzira o almoço a apenas almoçar. Entre gestos delicados e grande tranquilidade, devorou com prazer o cardápio francês - mergulhava a colher na boca, e depois olhava-a com muita curiosidade, resquícios da infância.
*
Mas em todas as outras convidadas, uma naturalidade fingida. Quem sabe, se fingissem menos naturalidade ficassem mais naturais. Ninguém ousaria. Cada uma tinha um pouco de medo de si própria, como se se achasse capaz das maiores grosserias mal se abandonasse um pouco. Não: o compromisso fora o de tornar o almoço perfeito.
*
E nem havia como se abandonar, a menos que fosse admitido o ocasional silêncio. O que seria impossível. Mal um assunto vinha por acaso e natural, era truculentamente que todas lhe caíam em cima, prolongando-o até às reticências. Como todas o exploravam no mesmo sentido - pois todas estavam a par das mesmas coisas - e como não ocorreria uma divergência de opinião, cada assunto era de novo uma possibilidade de silêncio.
*
A senhora Z, grande, sadia, com flores no corpete, 50 anos, recém-casada. Tinha o riso fácil e emocionado de quem casou tarde. Todas pareciam em cumplicidade achá-la ridícula. O que aliviava um pouco a tensão. Mas ela era um pouco claramente ridícula demais, não devia ser essa a sua chave - se a nossa vizinha do lado nos desse tempo de procurar qualquer chave que fosse. Não dava tempo: falava.
*
O pior é que uma das convidadas só falava francês. O que fazia com que a senhora Y estivesse em dificuldades. A desforra vinha quando a estrangeira dizia uma daquelas frases que, como resposta, podem ser exatamente repetidas, apenas com uma mudança de entonação. "Il n'est pas mal", dizia a estrangeira. Então a senhora Y, segura de que estaria falando certo, repetia enfim a frase, bem alto, cheia de espanto e do prazer de quem pensou e descobriu: "Ah, il n'est pas mal, il n'est pas mal." Pois, como disse outra convidada sem ser estrangeira e a propósito de outra coisa: "C'est le tan qui fait la chamon."
*
Quanto à senhora K., vestida de cinza, estava sempre disposta a ouvir e a responder. Sentia-se bem em ser um pouco apagada. Descobriria que sua melhor era a da discrição e usava-a com certa abundância. "Desse modo de ser que arranjei ninguém me tira", diziam seus olhos sorridentes e maternais. Arranjara mesmos sinais para a sua discrição, como a história dos espiões que usavam distintivos de espiões. Assim, vestia-se claramente com roupas chamadas discretas. Suas jóias eram francamente discretas. Aliás, as discretas formam uma corporação. Elas se reconhecem a um olhar, e, louvando uma a outra, louvam-se ao mesmo tempo.
*
A conversa começou sobre cachorros. A conversa final, na hora do licor, não se sabe por que tendência ao círculo perfeito, tratou de cachorros. A doce anfitrioa tinha um cão chamado José. O que nenhuma da corporação das discretas faria. O cachorro delas se chamaria Rex, e, ainda assim, em algum momento discreto, elas diriam: "Foi meu filho quem deu o nome." Na corporação das discretas usa-se muito falar dos filhos como de adoráveis tiranos das casas. "Meu filho acha este meu vestido horrível." "Minha filha comprou entradas para o concerto mas acho que não vou, ela vai com o pai." De um modo geral uma dama pertencente à corporação das discretas é convidada por causa de seu marido, homem de altos negócios, ou de falecido pai, provavelmente jurista de nome.
*
Levantam-se da mesa. As que dobram ligeiramente o guardanapo antes de se erguer é porque assim foram ensinadas. As que o deixam negligentemente largado têm uma teoria sobre deixar guardanapos negligentemente largado.
*
O café suaviza um pouco a copiosa e fina refeição, mas o licor mistura-se aos vinhos anteriores, dando uma vaguidão arfante às convidadas. Quem fuma, fuma: quem não fuma, não fuma. Todas fumam. A anfitroa sorri, sorri, cansada. Todas enfim se despedem. Com o resto da tarde estragada. Umas voltam para a casa com a tarde partida. Outras aproveitam o fato de já estarem vestidas para fazer alguma visita. Só Deus sabe, se não de pêsames. Terra é terra, come-se, morre-se.
*
De um modo geral o almoço foi perfeito. Será preciso retribuir em breve. Não.
*
Clarice Lispector
*
*
*
LISPECTOR, Clarice. Crônica social. IN: SANTOS, Joaquim Ferreira dos. (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 173-175.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada!!!