sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A filha senhora

 A minha última postagem de 2010. Como sabemos, este período festivo dispensa protestos.Os meus protestos parecem surdos. Todos estão felicíssimos. O tímido conto abaixo reflete o meu estado de graça. è a graça das plavras, das imagens, e da criação. Se pudesse escrevia,escrevia,escrevia todo o tempo sem nehuma lamentação.
Naiana P. de Freitas 31/12/2010

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A filha senhora


No quarto havia recortes de artistas colados na parede. Quadros de flores. E no centro, a imagem de Jesus, com uma coroa de espinhos na cabeça. O semblante dele trazia a serenidade de uma imagem de cera bem feita. Eram muitas imagens, detalhes, sufocação. A porta do quarto às vezes rangia de velha. A quarentona que morava lá tivera desejo de liberdade.
Um dia aos 24 anos ela decidira sair de casa. Contudo, seu pai se indispusera contra ela. Blasfemou-a:
- Saia daqui, e não volte mais! ...Se precisar de ajuda não lhe darei. Está decidido!
Assim a jovem, que é velha agora, recuou o pensamento. Encolheu-se. Murchou. E questionou a si mesma a afronta aos familiares. Um ano passou. Aos 25 anos, novamente a idéia voltou, com a palavra “liberdade” na lapela. Ela conseguiu um emprego. Encontrou um namorado. Estava quase feliz pela primeira vez. Ela tomou fôlego e com as mãos suando, meio rouca, e um pequeno pigarro na garganta. Abriu a porta do quarto e foi à sala. Seu pai sentado na poltrona velha. Com um jornal amarelo nas mãos. A mãe sentada na saleta ao lado em uma mesa grande de madeira nobre.
Esse pigarrear aparecia em três em três minutos e após eles um excesso de tosse a tomava. Desde criança desenvolvera tiques nervosos. A educação que recebera a tornara uma espécie de misantropa. Parou em frente ao pai. A mãe da sala a olhou com um olhar atravessado, porém piedoso. Ela gaguejou todas as palavras da frase. Palavras que saíram mal acabadas. Mas que tinham sentido:
- P-aaaa-i v-o-u mo-rarrr jun-tooo co-om Jor-gi-nhooo...
A sua decisão em meio a pigarros, tosses e gaguejos adquiriu um tom de graça ao mesmo tempo uma melancolia frenética. E uma impressão de que este seria o último suspiro de alguém que se afoga em um mar revolto.
O pai sentado levantou os olhos para ela, e exclamou:
- Filha minha não se ajunta, ainda mais com um sujeito de nome Jorginho. Volte para o quarto! Filha ingrata!
A jovem baixou a cabeça entrou no quarto. Soluçou durante dias. Ela não desejava magoar o pai nem a mãe. Ela arranjou neste dia, a imagem de Jesus e prendeu-a na parede do quarto. E o rosto frio para ela mostrou-se mais quente. Assim, se conformou com a idéia de que um dia enfrentou um tormento como Jesus o fez. Rezou muito. Chorou muito. Abandonou o emprego. O Jorginho desaparecera. O vestígio da paixão desaparecera. Paixão sem convivência morre. E a deles findou. Sem data marcada.
Aos 26 o lampejo liberdade, apareceu novamente. Porém a quarentona, não observou. Estava muito ocupada com os afazeres domésticos da casa dos pais. Iniciou os recortes na parede. A liberdade tornou-se sonho. E sonho distante. Aos 27, alimentou-se dos sonhos distantes dos artistas. Nutriu-se da liberdade dos outros e a sua não voltara. Ela não esperou. Outros anos se passaram, ficou velha. Não descobriu o sexo. Enfraqueceu-se.
Hoje, sozinha no quarto bordava. A lembrança dos pais mortos agora parece boa. A sensação típica dos colonizados do passado. Os pais lhe tiraram a liberdade, identidade e força. Hoje em dia na velhice, ela apenas pensa que foi uma filha ingrata.



18/12/2010

Naiana Freitas-


3 comentários:

  1. Profundo o texto e bem significativo, pois muitas pessoas fazem as coisas de acordo com o que as outras desejam delas. Mas, intimamente, tenho uma raiva dessas pessoas que parecem cordeirinhos, e que aceitam essa situação. Mas, não cabe a mim julgá-las, e sim aceitá-las já que não posso fazer nada!

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  2. ADOREI! ALGUMAS PARTES ME FIZERAM LEMBRAR O MEU TEXTO CLARICE, PRINCIPALMENTE OS RECORTES DE ARTISTAS NA PAREDE E O AMBIENTE (O QUARTO). A SOLIDÃO É A MORTE EM SILÊNCIO. E ELA (A PERSONAGEM) MORREU PRA SI E PARA O MUNDO. ESQUECIDA COMO UMA FOLHA MORTA AO CAIR DA TARDE! NAY VC ESCREVE MUITO MELHOR QUE CLARICE! VC CONSEGUE CONSTRUIR UMA LIGAÇÃO ENTRE O SEU TEXTO E O LEITOR QUE É MUITO MAIS INTENSA E PROFUNDA DO QUE NA CHATA CLARICE. O SEU TEXTO TEM VIDA PRÓPRIA, E NÃO É PAUTADO EXCLUSIVAMENTE NO TEU MUNDO. QUEM LÊ PERCEBE E SE IDENTIFICA COM A NARRATIVA, POIS TEM A VER COM TODOS NÓS SERES HUMANOS, IMPERFEITOS E CONTRADITÓRIOS. BEIJOS REY

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  3. ADOREI! ALGUMAS PARTES ME FIZERAM LEMBRAR O MEU TEXTO CLARICE, PRINCIPALMENTE OS RECORTES DE ARTISTAS NA PAREDE E O AMBIENTE (O QUARTO). A SOLIDÃO É A MORTE EM SILÊNCIO. E ELA (A PERSONAGEM) MORREU PRA SI E PARA O MUNDO. ESQUECIDA COMO UMA FOLHA MORTA AO CAIR DA TARDE! NAY VC ESCREVE MUITO MELHOR QUE CLARICE! VC CONSEGUE CONSTRUIR UMA LIGAÇÃO ENTRE O SEU TEXTO E O LEITOR QUE É MUITO MAIS INTENSA E PROFUNDA DO QUE NA CHATA CLARICE. O SEU TEXTO TEM VIDA PRÓPRIA, E NÃO É PAUTADO EXCLUSIVAMENTE NO TEU MUNDO. QUEM LÊ PERCEBE E SE IDENTIFICA COM A NARRATIVA, POIS TEM A VER COM TODOS NÓS SERES HUMANOS, IMPERFEITOS E CONTRADITÓRIOS. BEIJOS REY

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Obrigada!!!