quarta-feira, 30 de março de 2011

segunda-feira, 28 de março de 2011

sábado, 26 de março de 2011

Conto -Ruído de passos -Clarice Lispector

Para compartilhar,já que li e gostei.
LISPECTOR, Clarice. A via Crucis do corpo. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1991.


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Ruído de passos -Clarice Lispector




Tinha oitenta e um anos de idade. Chamava-se dona Cândida Raposo.Essa senhora tinha a vertigem de viver. A vertigem se acentuava quando ia passar dias numa fazenda: a altitude, o verde das árvores, a chuva, tudo isso a piorava. Quando ouvia Liszt se arrepiava toda. Fora linda na juventude. Tinha vertigem quando cheirava profundamente uma rosa.
Pois foi com dona Cândida Raposo que o desejo do prazer não passava.
Teve, enfim, a grande coragem de ir a um ginecologista. E perguntou-lhe envergonhada, de cabeça baixa:
-Quando é que passa?
-Passa o quê, minha senhora?
-A coisa.
-Que coisa?
-A coisa, repetiu. O desejo de prazer, disse enfim.
-Minha senhora, lamento lhe dizer que não passa nunca.
Olhou-a espantada.
-Mas eu tenho oitenta e um anos de idade!
-Não importa, minha senhora. É até morrer.
-Mas isso é o inferno!
-É a vida, senhora Raposo.
A vida era isso, então? essa falta de vergonha?
-E o que é que eu faço? ninguém me quer mais...
O médico olhou-a com piedade.
-Não há remédio, minha senhora.
-E se eu pagasse?
-Não ia adiantar de nada. A senhora tem de se lembrar que tem oitenta e um anos de idade.
-E... e se eu me arranjasse sozinha? O senhor entende o que eu quero dizer?
-É, disse o médico. Pode ser um remédio.
Então saiu do consultório. A filha esperava-a embaixo, de carro. Um filho Cândida Raposo perdera na guerra, era um pracinha. Tinha essa intolerável dor no coração: a de sobreviver a um ser amado.
Nessa mesma noite deu um jeito e solitária satisfez-se. Mudos fogos de artifícios. Depois chorou. Tinha vergonha. Daí em diante usaria o mesmo processo. Sempre triste. É a vida, senhora Raposo, é a vida. Até a bênção da morte.
A morte.
Pareceu-lhe ouvir ruído de passos. Os passos de seu marido Antenor Raposo.




®Naiana Freitas, 26 de março de 2011.













sexta-feira, 25 de março de 2011

Eu, uma leitora compulsiva de placas.

Eu, uma leitora compulsiva de placas.


Admito. Dez ou mais vezes admito! Eu sou uma leitora compulsiva de placas. Leio todas. Não excluo nenhuma. È verdade, que muitas delas não são úteis. São serviços como: trança-se cabelo, fazem-se doces por encomenda, geladão R$0, 50, Banca, reforço escolar, aluga-se casas, não jogue fora seu móvel usado, conserta-se fogão, geladeira, maquina de lavar, pasteis fritos na hora, acarajé, louve a Deus, Jesus voltará, moto táxi, fiado só amanhã, frutas, sombrinha etc. etc.. Só sei que as placas me chamam atenção, desde aquelas escritas em um muro com um aparente resto de tinta ou as elaboradas em uma gráfica com bastante cor, enfeite e figuras bonitas de comida que com certeza aquele restaurante não oferece. O ruim que com o tempo passei a adquirir o dom para recriminá-las ortograficamente. E transformei-me no tipo de pessoa que puxa conversa não com a frase:- vixe, o tempo tá calor né? Semana passada, estava com meu irmão em uma fila, aqui em salvador existe até fila para o elevador Lacerda, essa fila terminou todo o nosso repertório de conversa. De repente, eis que vejo uma placa, com o uso de palavras homônimas trocadas, lá que faço a minha pergunta: Qual o erro daquela placa?Para desafiá-lo um pouco. Ele pensou. E como não é bobo me disse à resposta que desejava ouvir. A partir deste momento um vasto campo de conversa surgiu, e acho que dei até aula de homônimos, parônimos, termos simpatizantes e híbridos na fila. O lado positivo de ler tantas placas é que nunca me falta conversa, eu reflito sobre a criatividade das pessoas na tarefa de se fazer entendível, e a terrível batalha para domar a língua portuguesa. O lado negativo é que sempre leio as mesmas placas. Parece que elas chamam hipnotizando-me egoisticamente e eu não resisto e leio-as de novo, de novo sem parar. E penso: - já li, não acredito que vi isso de novo, gastei minha visão... Então como uma saída, terapia. Eu preciso fechar meus olhos e me concentrar em uma matemática ilógica. Assim, no momento em que torne visível tudo eu somente possa ver as placas invisíveis.



®Naiana Freitas, 25 de março de 2011.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Poeira, lama, chuva no aniversário de Salvador. Regados a Miss simpatia da Cidade!

Poeira, lama, chuva no aniversário de Salvador. Regados a Miss simpatia da Cidade!



®Naiana Freitas, 23/03/2011



Nós não pagamos por direitos humanos na passagem de ônibus...


Como sempre,

Na cidade, existe a oposição que fala,fala e não resolve nada... Do lado esquerdo vai para o direito. E também não resolve nada. Acho que como pobre filha de proletariado, e aspirante a inteligente, eu vou necessitar voltar à barbárie. Porque ao que parece, nós não pagamos por direitos humanos na passagem de ônibus. E nos dias de chuva, em que Salvador vira uma peneira, e todas as janelas do ônibus são fechadas... Sinto que estou em uma espécie de câmera de gás nazista. Como sou extremista, aposto que somente eu [e eu mesma] tenho essa impressão.



®Naiana Freitas, 23/03/2011

segunda-feira, 21 de março de 2011

O fim de Dorian Gray

O fim de Dorian Gray

 
Ufa!O fim da leitura que pensei que nunca iria chegar ao fim. Porque estava em meio a tantas atividades ao mesmo tempo. Wilde que pensei que seria o último a chegar. Chegou primeiro e até causou-me uma agitação nos capítulos finais. Sim, pois o livro no início é bom, mas no meio estanca parecendo uma cruz pesada atravessando seus olhos cansados. Em certo momento que avançava na leitura, pensei que o livro iria me vencer tal qual fez o retrato contra o personagem central Dorian Gray. Mas no fim deu tudo certo e eu venci a energia do detalhamento em alguns capítulos. Excesso de ambientes que sufocam. É claro, que tal estilo é reflexo do período vivido, por Oscar Wilde (1854-1900), na sociedade inglesa do final do século XIX. Existem criticas calorosas ao estilo de vida inglês, a igreja, a literatura inglesa, ao casamento e a mulher. E há quase no fim do enredo uma explicita acusação a um livro pelo envenenamento moral do personagem principal. Quanto às censuras a igreja, acredito que mudou pouca coisa no que se refere a dogmatismo do século XIX para cá. Quando os personagens masculinos criticam as mulheres em alguns pontos senti vontade de rir e em outros de falar: que cara sem vergonha. Posso afirmar após a leitura que o livro é um clássico mesmo. Ele desafia o tempo com suas idéias “modernas”. E ao ir fazendo minhas anotações no meu pequeno e surrado pedaço de papel, conseguia parar e pensar: Que coisa! E desta forma, começava a dialogar com o autor personificado em seus personagens. È muito engraçado literatura. E falava, “se você tivesse vivendo no meu tempo, acho que já teria morrido se suicidado... sei lá”. Eu sozinha no meu canto, distante temporalmente, geograficamente, e em certa medida ideologicamente conversava com Oscar Wilde. Assim, para não me alongar mais, cito Wilde que de certa forma me fez pensar em Freud... “Sempre que fazemos alguma coisa com muita freqüência, ela jamais constitui um prazer.”p.271.

Quem puder ler, leia.

Quem não puder assista ao filme!



®Naiana Freitas, 21 de março de 2011

domingo, 20 de março de 2011

O Manuscrito de minha tradução de The new dress- V.Woolf

Leitores,

Como tive bastante trabalho traduzindo este conto-The New dress- resolvi digitalizar o manuscrito da primeira página que traduzi. Em breve, postarei a primeira página definitiva. Como o texto escrito a mão ficou muito bonitinho, desejei compartilhá-lo com uma espécie de orgulho de mãe.Segue o manuscrito:


Manuscrito p.1-versão NT

®Naiana Freitas,20 de março de 2011

Against myself..

I'm fighting against myself. And I do not desire peace.




[enfrentando meu medo inglês]

:)
®NPF, 20 de março de 2011

sábado, 19 de março de 2011

Não...

Não.Eu não sei todas as palavras.Não sei extirpar toda a agonia.

®Naiana Freitas,19 de março de 2011

A única certeza que temos quando nascemos é a da morte.

Como diz o ditado popular: A única certeza que temos quando nascemos é a da morte. Ou aquela que diz para morrer basta estar vivo... E sabemos disso, desejamos coisas inúteis o tempo inteiro. E naquele dia exato, no momento de deixarmos os nossos corpos físicos sem o recebimento de aviso prévio. Só sei que a morte é triste para quem fica usando mais um ditado popular.

®Naiana Freitas,19 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Minha flor aguardando um poema...

Minha flor aguardando um poema... Verdade!




foto e edição:Naiana Freitas



                
   NPF-16/03/2011

segunda-feira, 14 de março de 2011

O primeiro toque, querido!

O primeiro toque, querido!

 
Você foi a alegria do meu domingo. Recebi você eufórica. Depois, não acreditei que você estava ali comigo. Eu segurava você. E você com toda certeza não se dava conta da minha presença ali. Entramos. Sentei ao seu lado. Desnudei-o do seu manto sintético. E eu não acreditava. Por que tu não disseste que viria tão cedo? Eu esperava por você lá pela quinta-feira e chegaste hoje! Justo hoje que eu nem esperava. Acho que é porque sabia que a surpresa possui um hálito fresco. O hálito da novidade. Olhei para dentro de ti e no canto do rosto uma lágrima surgiu. Foi emoção. Possuí-lo. Você tão lindo, calmo, esperando por um toque meu. O primeiro toque. Nunca relação de mortal para sagrado. Abracei você antes de conferir-lhes suas dobras. Senti teu cheiro. È a coisa que faço sempre com os meus. Você não sentirá ciúme de mim. Talvez seja o contrário eu sinta ciúme de você. E só deixe você passear com quem confio. Não posso te deixar ir com qualquer um... E eu te queria tanto. Quem é você? Seu nome? Muitas vezes não revelo. Mas hoje é exceção e tu me pedes com estes olhos miúdos quase imperceptíveis na cara. E eu direi. Os meus outros não sentirão o peso da palavra dita. Porque sabem o quanto estão sendo meus sempre. Sempre do lado esquerdo do meu peito. Sempre com mãos que me tocam sem pedir. Sempre com uma ternura. Que os outros não conhecem. Só eu. Quem é você? Querido visitante? Que agora morará comigo para sempre?-Sou o teu novo livro chamado: Contos completos de V. Woolf.



®Naiana Freitas,13 de março de 2011

domingo, 13 de março de 2011

Conselhos..

É engraçado como nenhum conselho feito por você é útil a você.

®NPF,13 de Março de 2011

sábado, 12 de março de 2011

Como esqueci da senhora Woolf em minhas conjecturas?

Como esqueci da senhora Woolf em minhas conjecturas? Agora falta apenas uma página da minha tradução bruta. E não sei se terei como postar o lindo conto: O vestido Novo.Tentarei. Foi tanto esforço. Tentarei.Porque o texto é divino.

®NPF, 12 de março de 2011

sexta-feira, 11 de março de 2011

Por que todos os poemas portugueses[que conheço] são melancólicos?

Por que todos os poemas portugueses [que conheço] são melancólicos?

Será que sou que me aproximo só destes, ou no fundo é o estilo português de escrever? Como li, em alguma disciplina de teoria literária, a melancolia tornou-se um típico sentimento do além mar. A saudade também. Depois dos épicos de camões, sobrou a saudade. Depois das inventivas lutas, restou o fracasso das batalhas reais. Mas, não é minha intenção percorrer mais linhas desenvolvendo um texto surpeficial-teórico sobre o estilo português de escrever. Não. São poucos autores portugueses que conheço. Confesso que Florbela consome grande parte do tempo dedicado aos escritos portugueses, seguida por Pessoa. È meio senso-comum meu gosto. È verdade, que já chorei ao ler os poemas de Florbela e fiquei com os olhos arregalados lendo sua biografia. Enfim, um poema de Espanca:
Tortura
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento! ...


Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento ...


São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!


Florbela Espanca, in "Livro de Mágoas"
Disponível em: http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809020004


Que de forma alguma é uma tortura aos meus olhos. E se mesmo sendo uma preferência comum, texto sentido é texto sentido.

®Naiana Freitas, 11 de março de 2011.









quinta-feira, 10 de março de 2011

Ainda? Astrologia-Dorian e Clarice..

Ainda estou em conjecturas. A astrologia é muito vasta e intensa...e tenho que a dividir com Clarice e Dorian.

Npf- 10/03/2011

terça-feira, 8 de março de 2011

[Em comemoração ao dia internacional da mulher]:Quero ser dona da casa e não dona de casa!

Quero ser dona da casa e não dona de casa
                                            [Em comemoração ao dia internacional da mulher]

Hoje dia histórico: Dia internacional da mulher. Para mim uma quase militante do movimento feminista, as felicitações soam estranhas. Na verdade foram felicitações meio entre parênteses. Então durante todo o dia, eu desejei escrever alguma coisa sobre esse assunto sobressalente ao carnaval. Mas fracassei. E agora para a minha surpresa ouvi o refrão da música Bote um chip na minha vida, neste caso o refrão é a mesma frase repetida oito vezes. E neste processo ocorre o trocadilho fônico tão bem conhecido nas letras de pagode baianas. Letras tão conhecidas que me deixam sim em estado de histeria. Borbulhando por dentro. Eu espero nunca encontrar com um sujeito que cria isso com seus neurônios dançarinos e claro inteligentes (são inteligentes fazem dinheiro!). Porque em estado de cólera sou completamente tudo. Aliás, o pior é encontrar as dançarinas frenéticas, gritando um: I Love you! Em um show de pagode desses. E ainda por cima enfeitando a festa. Sendo os móveis da festa. Porque sabemos que em salvador existem festas em que mulher entra de graça,não paga. Acho que ganham um espetinho para demonstrar a carne. Ou, acho que conseguem uns espetinhos humanos na festa mesmo. E neste caso, mulher está em pé de igualdade com os homens. Caçam também. É o troço do algo positivo sem freio. Mas, sinceramente foram tantos freios de avôs, pais, irmãos, tios, maridos, amantes que caçar não deve ser tão perigoso. Mas, o problema do dia é o vazio coletivo na consciência. A data nos universos formais da civilização não confere, é o típico caso da eleição da presidenta. Ouvi tantos: “[Dilma] ela não dará certo... nunca vi mulher governar sem o fogão e ela foi eleita porque é sapatão.” Coisas que pipocam na cabeça de uma quase militante. Na verdade é muita besteira que se ouve, sem lógica, sem ciência, com excesso de fé, talvez a da idade média. Quantas mulheres não são empregadas porque são capazes de gerar um filho, (porque geram custos e afastamentos pós - parto) e ter TPM (podem faltar devido a complicações, mulheres diferentes sintomas diferentes...) e etc.. E no fim das contas são excluídas porque possuem útero e a capacidade de criar. As mulheres que se sobressaem na sociedade hipócrita civilizada brasileira são demonizadas como a professora do refrão “todo enfiado”; ou são santificadas como as mães. Porque ser mãe resulta em uma função de intocável; depois se juntam as inteligentes que ganham logo a fama de lésbicas; [acho que porque tem que se negar que são mulheres biologicamente perfeitas e afirmar que são psicologicamente afetadas]. As mulheres que batalham não aparecem nas congratulações em canais de TV, propagandas de clínicas de fertilidade. Porque são as pobres, as com pouca instrução, as feias, gordas, velhas, as com roupas fora da moda etc. Assim, ouvir uns: “feliz dia da mulher” não garante a paz. Mas uma espécie de busca. Principalmente por respeito. Respeito humano que deve ser abrangente para todos os segmentos da sociedade, até os homens. Muitos deles porém, não se cansam de estar no centro desde que nascem, e se desculpam com um “fui criado assim, fui criado por minha mãe machista” e isso tem um grau de noção bem espertalhão que preciso rir ou ter pena?. É na busca que acredito e quando olho para trás fico nas nuvens só em saber que sei ler, escrever, fazer contas além do necessário para gerir uma casa. Tenho como disseminar minha opinião, questionar, não ter filhos por opção, amar quem desejo e no fim quero ser dona da casa e não dona de casa.

Viva!

®Naiana freitas,8 de março de 2011.










segunda-feira, 7 de março de 2011

O motivo é acalmar os meus sentidos...

O motivo é acalmar os meus sentidos...

Talvez escrever para mim seja o olhar para fora da caverna... Talvez seja, uma luz branco-negra ou negro-branca que se revela... Talvez nada seja tão assertivo em minha vida quanto escrever. Pena que escrevo pouco. E no pouco não sei se há talento. Só sei que escrevo. Escrever afasta a dor. E principalmente me permite criar. Sou tão inquieta que preciso criar todo o tempo para acalmar meus sentidos. É certo, de certa forma, quando dizem, que o autor escreve pra ser lido. E mataram o próprio autor nesse processo. Mas no fundo escrevo para me sentir bem. É como aquilo que li: “[...] o escritor o enquanto tal, não é o doente, mas antes médico, médico de si próprio e do mundo.” [DELEUZE, Gilles. Crítica e Clínica. trad.Peter Pál Pelbart.[SL]:editora 34.p.13]

®Naiana Freitas, 07/03/2011




quinta-feira, 3 de março de 2011

“Nem só de pão vive uma mulher”

“Nem só de pão vive uma mulher”

 
“Nem só de pão vive o homem”. Ela leu esta frase pichada no muro da esquina. Ao lado uma seta apontava para uma igreja. “Nem só de pão vive o homem” ela repetiu e continuou caminhado até o ponto de ônibus. Pegou o ônibus e chegou ao trabalho. Ela vendia peças de automóvel. Em pé em um balcão todo o dia, vendendo rolamentos, freios. A clientela gostava dela. Normalmente eram homens, ou somente homens acompanhados de algumas mulheres. Às vezes algumas mulheres saidinhas. Aquele emprego nunca fora seu sonho, seu pai por intermédio do tio a colocara lá. Acostumou-se estar sob supervisão constante. Em casa e ali. Sem liberdade e com pão todos os dias. O salário que recebia pagava roupas, uma TV, e guardava o resto. Ela dizia à mãe que era para o enxoval. Noivo não tinha, mas paqueras aos montes. Na loja de peças ouvia muitas cantadas, que às vezes sorria com um sorriso amarelo. Mas alguma coisa mudara nela, com a repetição da frase, passara um dia repetindo-a e aérea. Entregaram na loja alguns panfletos das aulas de dança do ventre. Aulas baratas. Ela conseguiria pagar com uma parte do dinheiro do enxoval. No ônibus ela ficou animada e pensou: “Nem só de pão vive a mulher... nem só de pão posso viver”. Ela desatenta não percebera que pela primeira vez em sua vida inteira insinuara ser mulher. E sua nova atitude içara dentro dela uma força mágica. Mas tão tola ainda, que não percebera. No jantar, avisou aos pais que se matricularia em aulas de dança. E trêmula proferiu o termo “... do ventre”. O pai com o garfo na boca a olhou com um olhar de lança. Qual o problema? Ela retrucou:
-Nem só de pão vive o homem, no meu caso, nem só disso!- apontou a casa e o crachá na camiseta pólo- A mãe assustou-se, nunca ouvira a filha falar daquele jeito. E o pai:
-Se você não tem noivo até agora, de agora em diante não terá mais... Mulher que se preze não dança! A mãe com uma voz amarga e irônica disse:
-Não dança no salão, dança no fogão e na cama...
Neste instante tudo silenciou. Piscadelas de olhos meio raivosos no escuro subjetivo daquela sala clareada com um lustre no centro da mesa. Nenhuma palavra mais. Silêncio perturbador. Balbucios internos se elevaram um sobre os outros, mas ninguém daquela sala pode perceber a distância que havia se formado entre eles. Separação que se pronunciara com aquele episódio com força e destreza. Pela manhã a mãe disse a filha:
-Matricule-se! Já tive sonhos um dia. E juro que não era ter casado com seu pai. Mas naquela época, não havia escolha para mim.
A naturalidade está em se conformar. A vida é conformidade e desespero. O sonho desconformidade e esperança. Ela no caminho para o ponto de ônibus leu a frase mais uma vez e seguiu a seta oposta a da igreja. Á noite foi à primeira aula. O pai ficou retrucando sozinho durante dias. E ela todas as noites sonhava com uma dança agitada, pulsante, ondulada. “Nem só de pão vive uma mulher” viveu a pensar na frase todos os dias. E de repente, não eram homens-trapos que a galanteavam-na não. Eram homens-homens. Nem só de dança, volúpia, labor vive uma mulher. Ela pensou. E sim de amor-próprio. Amor que gera ao redor o que se quer. Amor que produz amor e companhia.



®Naiana Freitas-14/02/2011