quinta-feira, 3 de março de 2011

“Nem só de pão vive uma mulher”

“Nem só de pão vive uma mulher”

 
“Nem só de pão vive o homem”. Ela leu esta frase pichada no muro da esquina. Ao lado uma seta apontava para uma igreja. “Nem só de pão vive o homem” ela repetiu e continuou caminhado até o ponto de ônibus. Pegou o ônibus e chegou ao trabalho. Ela vendia peças de automóvel. Em pé em um balcão todo o dia, vendendo rolamentos, freios. A clientela gostava dela. Normalmente eram homens, ou somente homens acompanhados de algumas mulheres. Às vezes algumas mulheres saidinhas. Aquele emprego nunca fora seu sonho, seu pai por intermédio do tio a colocara lá. Acostumou-se estar sob supervisão constante. Em casa e ali. Sem liberdade e com pão todos os dias. O salário que recebia pagava roupas, uma TV, e guardava o resto. Ela dizia à mãe que era para o enxoval. Noivo não tinha, mas paqueras aos montes. Na loja de peças ouvia muitas cantadas, que às vezes sorria com um sorriso amarelo. Mas alguma coisa mudara nela, com a repetição da frase, passara um dia repetindo-a e aérea. Entregaram na loja alguns panfletos das aulas de dança do ventre. Aulas baratas. Ela conseguiria pagar com uma parte do dinheiro do enxoval. No ônibus ela ficou animada e pensou: “Nem só de pão vive a mulher... nem só de pão posso viver”. Ela desatenta não percebera que pela primeira vez em sua vida inteira insinuara ser mulher. E sua nova atitude içara dentro dela uma força mágica. Mas tão tola ainda, que não percebera. No jantar, avisou aos pais que se matricularia em aulas de dança. E trêmula proferiu o termo “... do ventre”. O pai com o garfo na boca a olhou com um olhar de lança. Qual o problema? Ela retrucou:
-Nem só de pão vive o homem, no meu caso, nem só disso!- apontou a casa e o crachá na camiseta pólo- A mãe assustou-se, nunca ouvira a filha falar daquele jeito. E o pai:
-Se você não tem noivo até agora, de agora em diante não terá mais... Mulher que se preze não dança! A mãe com uma voz amarga e irônica disse:
-Não dança no salão, dança no fogão e na cama...
Neste instante tudo silenciou. Piscadelas de olhos meio raivosos no escuro subjetivo daquela sala clareada com um lustre no centro da mesa. Nenhuma palavra mais. Silêncio perturbador. Balbucios internos se elevaram um sobre os outros, mas ninguém daquela sala pode perceber a distância que havia se formado entre eles. Separação que se pronunciara com aquele episódio com força e destreza. Pela manhã a mãe disse a filha:
-Matricule-se! Já tive sonhos um dia. E juro que não era ter casado com seu pai. Mas naquela época, não havia escolha para mim.
A naturalidade está em se conformar. A vida é conformidade e desespero. O sonho desconformidade e esperança. Ela no caminho para o ponto de ônibus leu a frase mais uma vez e seguiu a seta oposta a da igreja. Á noite foi à primeira aula. O pai ficou retrucando sozinho durante dias. E ela todas as noites sonhava com uma dança agitada, pulsante, ondulada. “Nem só de pão vive uma mulher” viveu a pensar na frase todos os dias. E de repente, não eram homens-trapos que a galanteavam-na não. Eram homens-homens. Nem só de dança, volúpia, labor vive uma mulher. Ela pensou. E sim de amor-próprio. Amor que gera ao redor o que se quer. Amor que produz amor e companhia.



®Naiana Freitas-14/02/2011

Um comentário:

  1. Parabéns Nai!
    Digno!
    Que bom que arrajou tempo e boa vontade de nos oportunizar, tanscrevendo seu texto tão bom.

    Eu tô precisando fazr um, não tão tão como esse, mas to fazendo uma chatice de tradução de artigo científico, necessário para meu futuro. Admito que no todo isso realmente não é tão ruim.
    nesses últimos tempos tenho acreitado mais em inspírações e é uma pena que elas não me venham nas minhas manhãs. Gosto muito mais de escrever nelas.

    Continue Nai, sempre continue.
    Abçs!

    ResponderExcluir

Obrigada!!!