quarta-feira, 11 de maio de 2011

“Laranjas-(mente)”

Nota: este texto foi escrito a uns dois anos atrás, precisamente no dia 13/05/09.Contudo, nunca publiquei. Essa semana, revendo textos antigos. Reli este, e gostei. Tomei coragem e agora o publico.  
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Laranjas-(mente)” .


Ela acorda e ao por o pé no chão lembra que mora sozinha. O que motivava a triste Maria, naquele dia era o desejo por um suco de laranja. Caminha até a cozinha. Encontra três laranjas na fruteira. Abre o armário. Nele se reflete o seu rosto pálido e desbotado. Dormira sem tirar a maquiagem. Maquiagem que fazia parte do seu trabalho chato e entediante. Nos sábados e domingos ficava em casa sozinha, ás vezes comprava algo na feira ou observava os outros da janela. Era a sua mania observar coisas inobserváveis por outros, como pés que andavam molhados de chuva e com sede de presa, crianças sujas e sem mães, famílias pobres, amores escondidos... Notara que seus cabelos estavam desalinhados também. Foi ao banheiro, Penteou-os, fez neles tranças tortas, lavou o rosto na água fria. Voltou às laranjas e abriu-as em um corte firme. Alinhou todas na pia. Quando estava decidida a espremê-las na centrifuga, algo a impediu. Então em um único e preciso gesto pegou as laranjas mais próximas e observou-as atentamente: fibras, em formato de gotículas com um líquido amarelo; no centro caroços brancos e pequenos; um perfume ácido cheiroso invadiu-a. Sem pestanejar levou uma metade da laranja a boca e com voracidade experimentou-a, devorando cada gotícula ali. Ela na cozinha, a casa vazia. A sensação de deleite tomou-lhe sem licença. As laranjas satisfizeram-na fisicamente. Confusa e psicologicamente só se encontrava. Sua mente divida em metades. Uma para um lado, uma para o outro. Aquilo a angustiava, ela não chegava ao início ou ao fim de si mesma. Desordem, Desordem... Duas partes repartidas com a faca mais perigosa: a dúvida. Angústia, conflito, tormento precisava de alguém, de ajuda. Ajudem-me partes caladas! Saboreou laranjas sobraram-lhe bagaços. Uniu as cascas ao meio vazio depois as jogou no lixo. O suco não fez. As laranjas a desafiaram. As desafiaram ao embate consigo mesma. De repente viu-se a beijar um homem na cozinha seminu. O sabor daqueles lábios não sabia, entonteceu-se. Os lábios espremiam-se um no outro com ardor. As peles macias tocavam-se, cheiravam-se. Os corpos dobravam-se gemiam sem dor. E o cheiro cítrico de cada um se misturava. Seus pés suspenderam-se do chão. Diferentemente das laranjas não estava oca por dentro, como o bagaço. Maria estava plena, Não havia mais as dúvidas e conflitos. Aquele homem sem nome amava-a intensamente. Ele rasgaria as roupas dela se fosse preciso dar-lhe gozo. Mostraria-lhe a verdade mesmo se houvesse dor. Acalmava-lhe com uma voz mansinha a dizer-lhe tudo. As laranjas existiam para si mesmas? Saberiam elas o fim para que nasciam? Mesmo separadas se reconheciam por possuírem traços perfeitos e alinhados? No lixo continuavam a ser laranja. Não mais doces, amargas, suculentas. E, sim, fruto-desejo. Eles na cozinha saboreavam-se mutuamente, uma refeição deleitosa, experimento indescritível. Em pé de igualdade experimentavam o outro, com ânsia e agonia. Ele a levantara. Trouxe-a junto ao seu corpo em vibrações. Abraçou-a e sentiu as pulsações rasgarem-lhe a pele uniforme. Disseram-lhe coisas sussurradas, um ao outro. Coisas não sabidas, nem perguntadas aos outros. Uniram-se em uma fruta. E produziram sucos, sabores, êxtases. As laranjas foram embora no outro dia, o carro do lixo passou e levou-as e nem sobrou bagaço.

®Naiana Freitas,11 de maio de 2011-

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