terça-feira, 31 de maio de 2011

A manhã que não choveu.

.A manhã que não choveu.



As unhas estavam rosas-descascadas. Um rapaz ao lado gritava seu nome. E uma criança dormia na calçada. Ela em silêncio e sozinha. Sentia-se como em queda tal qual fez Alice antes de adentrar no seu mundo encantado. Ela absorvida dentro de sua alma magoada, estilhaçada. Ela não observou a aproximação do rapaz. Ele gritou: Amália! Ela olhou-o de cima a baixo e não o reconheceu.

- não me reconhece? Você é Amália irmã de Josélia?

- não. Disse-lhe. Seco e roto como era ela.

- é sim! Você e sua irmã “estudou” comigo. Naquele colégio estadual... Que agora não lembro o nome...

- sinceramente, senhor, não lembro de você.

- houve um silêncio profundo entre ambos. Ela virou o rosto para a criança adormecida no fundo da rua. Era uma manhã de segunda. A manhã do ressentimento. A manhã do desejo de fuga. A manhã que não choveu. O rapaz inquieto, sem conseguir entender aquele comportamento, indagou coisa que dificilmente fazia, sobre o porquê de uma mulher tão jovem, sozinha em uma manhã daquelas... Sentada em um banco de parque. Ela com o corpo aparentemente esvaziado de qualquer tipo de alma ou uma alma sem corpo? Em um excesso de tique nervoso voltou-se para ele e disse-lhe três palavras. Três palavras que soaram estranhas. Três palavras mal ditas, mal acabadas. Três palavras sem doce.

- eu não sou...

-o quê? Perguntou-lhe.

- eu não sou quem diz que eu seja.

O rapaz levantou-se estupidamente confuso e quieto. Ainda olhou para ela antes de se afastar para o outro lado da rua. Ela estava lá atônita e nem o viu. Nem na sua chegada nem na sua saída. Aquelas poucas palavras trocadas com uma mulher para ele conhecida criaram um deslocamento profundo dentro daquilo que desconhecia como alma. [E a mágoa a fortalecera].

 
®Naiana Freitas,31 de maio de 2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada!!!