sábado, 3 de setembro de 2011

Um exercício insosso de viver.

Um exercício insosso de viver.

Era o silêncio. Nunca mais ouvira tanto silêncio assim. A janela estava aberta e um vento fresco de outono adentrou. Ela sentada na cadeira, meio prostrada ou quase que inteiramente.  A sensação que se tinha era que toda a idade do mundo condensou-se ali dentro dela. Suas mãos enrugadas, pés envolvidos em um par de meias laranja e um rápido pigarro na garganta moviam-na naquela cadeira.  Dois passarinhos posaram na janela. Eles começaram a conversar passarinhês. Ela durante tantos anos aplicada, mas não aprendera essa língua do maravilhoso. Agora, seus únicos visitantes não se faziam entender. Tudo o que lhe disseram para fazer fez: casou-se, assistiu missas, confessou-se, procriou. Mas, tudo isso foi um exercício insosso de viver. Ela desejava antes de tudo, antes de ser a D. Maria viajar, ser piloto, ser da Marinha. Mas o acaso pregara-lhe uma peça. E ela desfez-se do que fora um dia. Naquele dia primeiro. Ela aprendeu o caminho que lhe afastou de si mesmo. Alguém bateu na porta. Ela respondeu um“Entre” fraco e rouco. Uma moça jovem com uma farda branca, pinçada com botões forrados entrou no quarto e perguntou-lhe:
- como está hoje, dona Maria?
- bem... Meio rouca... Bem minha filha.
- mais tarde, volto aqui para aferir sua pressão... Viu?
-Hummm...
A moça a olhou ternamente, aproximou-se e segurou sua mão. Em um momento, poderíamos ter a impressão que a jovem hesitou em falar alguma coisa. Talvez qualquer coisa doce que iluminasse a senhora sem brilho na cadeira. Enfim, a mocinha contentou-se. E não lhe disse nada agradável ou desagradável e apenas se foi deixando a presença do vento.
Naquele dia, em que os anos se abateram fortemente sobre a Maria, a coragem que fora dela um dia voltara e recobriu suas fibras estriadas e frias, recobriu seu pulmão acinzentado. E em relance pensou: “... a melancolia que existia deixou sim brecha para a coragem. Fui corajosa todos os dias...”. Os passarinhos continuaram conversando neste intervalo. A moça com farda de botões bateu na porta novamente e a senhorinha sentada não respondeu.[04/08/2011]




®Naiana Freitas, 03 de setembro de 2011.



4 comentários:

  1. Muito Bom mesmo.
    O final então...
    Abçs!

    ResponderExcluir
  2. Olha só, não conhecia nem sabia que tinha como amiga uma talentosa e sensível contista! Gostei de ler, uma lição profunda sobre o ser humano e o existencial, além de possuir uma escrita agradável. Beijos e saudações minhas!

    ResponderExcluir
  3. obrigada, gente!!
    Eduardo: valeu como sempre!:D
    Cláudio:obrigada pela escrita agrádavel,tenho duvidas quanto a isso, obrigada!

    ResponderExcluir
  4. Bom o texto. O final me pareceu similar aos textos do Carlos Ribeiro - esperava que a enfermeira fosse D. Maria jovem. Me surpreendi com o final. A escrita... bem... a escrita... não dê importância a isso! Vc escreve muito bem!
    Senti em diversos momentos sua presença no texto, isso é bom.

    ResponderExcluir

Obrigada!!!