terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos VIII/ Fernando Pessoa

Quando/Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


©NPFreitas, 31 de janeiro de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos VII/ Florbela Espanca


Versos/Florbela Espanca


Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.

Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…

Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…

Florbela Espanca - O Livro D’Ele


©NPFreitas, 30 de janeiro de 2012


Da série de não possessivos VI/ Mônica Menezes

Do amor de Clarice/ Mônica Menezes

não sei se sei
te entender
acho que sei
te sentir
sinto muito, Clarice,
sinto muito
e sentir é só o que eu sei.


MENEZES, Mônica. Estranhamentos. Salvador: P55 Edições, 2010 p.40. (coleção cartas baianas)


©NPFreitas, 30 de janeiro de 2012.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos V/ Cecília Meireles



Soneto antigo/ Cecília Meireles

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


©NPFreitas, 28 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos IV/ Ana Cristina Cesar



Psicografia /Ana Cristina Cesar

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
Cato obsessões com fria têmpera e digo
Do coração: não soube e digo
Da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
Na vida) e demito o verso como quem acena
E vivo como quem despede a raiva de ter visto



Hollanda, Heloisa Buarque de. (ORG). 26 poetas hoje. 6a ed. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2007. p.142

©NPFreitas, 28 de janeiro de 2012

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos III/ Mário Quintana




Ah! Os Relógios /Mário Quintana

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.
Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.
E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

©NPFreitas, 27 de janeiro de 2012

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos II/Ângela Vilma.



Amorosa/ Ângela Vilma

O que eu faria se deitasses ao meu lado?
Sentiria, enternecida, teus cabelos?
Permitiria que o vento vindo de ti
Estremecesse meu ventre, meus seios?

Que palavra diria? Que riso riria?
Deleitosa, me abraçaria a ti?
Deslizaria sobre teu corpo, enfim,
Minha mais desnuda solidão?

Ou dormiria, então, no teu ombro,
Entrelaçando teus indóceis sonhos?
Será que nesse momento te tocaria
Tão leve, que sequer te acordaria?

O que eu faria, deitada ao teu lado?
Arrebataria teu corpo nas águas
Cálidas, diabólicas, de minha alma?
Te amaria com o ódio que me consome?

Ou apenas, amorosa, chamaria teu nome?

VILMA, Ângela. Poemas para Antonio. Salvador: P55 Edições, 2010. p.14



©
NPFreitas, 26 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos I/ Rainer Maria Rilke

Da série de não possessivos I/ Rainer Maria Rilke

A hora inclina-se e toca em mim
Com claro bater metálico
Os sentidos me tremem. Sinto: eu posso...
E colho o dia plástico.

Nada estava acabado antes de eu ver:
Todo o devir aguardando em quietude
Maduros meus olhares: a cada um,
Como uma noiva, chega a coisa ansiada

Nada é pequeno para mim:
Gosto de tudo
E tudo eu pinto sobre ouro
Com grandeza
E bem alto o levanto - sem saber de quem
Vai a alma libertar.
RILKE, Rainer Maria. Livro de horas. Tradução de Geir Campos. 2ed. Rio de janeiro: Civilização brasileira, 1994.p.15.

©NPFreitas, 26 de janeiro de 2012.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Da série de não possessivos.

Da série de não possessivos.

Como iniciei o mês postando algumas fotos minhas, terminarei Janeiro com alguns textos não meus. Eles me fizeram pensar: sobre mim, os outros, o tempo, a escrita, a inspiração que fico aparando como uma goteira e muitas vezes nem pinga, sobre meus textos acabrunhados. Eu havia feito uma seleção de 12 poemas para 2012, mas mudei de ideia porque ficou muito clichê. Então invoquei o nome “Da série de não possessivos.” Aviso de antemão, são poemas sem hierarquias e com preferências porque se os textos estão aqui é porque os senti. Que venham os textos!

©NP.Freitas.
25 de janeiro de 2012.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A máfia do Enem ou a arte do boicote?

A máfia do Enem ou a arte do boicote?
Eu já tive muitas insatisfações com notas. Antes da faculdade e na faculdade. No ginásio e no primário e um desprazer completo no colegial, que as notas foram o mínimo problema. Então, posso dizer que tenho prática com o descontentamento com os números finais. Hoje, fico na dúvida em saber de que lado é maior o aborrecimento. Mas, pensando bem, é pior no vestibular, antes da universidade, na tentativa de sermos aceitos por ela. Muitas noites sem dormir, muitas expectativas suas e dos outros, dos seus professores que dizem: “coloco a mão no fogo por você”... Depois vem o tal do vestibular e você não passa, ou, você é classificado e não é chamado nas segundas, terceiras listas... Nessa época, senti um desagrado total com as notas finais, mas, não blasfemei a rede pública, nenhum corretor (a) da redação. Não questionei se ele ganhava bem ou não, ou se ele (a) tramava uma conspiração contra mim. Eu não fiz nada disso, pelo contrário, chorei muito. E ouvi muitos: “Você tão inteligente!”. Depois, desses autos e baixos, acho que foi bom eu não ter adentrado a universidade com 17 anos. Porque, não sabia o que queria, ou até sabia, mas fui convidada a pensar em outros voos já que era tão inteligente! A diferença dessa ocasião, para esta, é que não existia um SISU, embora já contasse com um PROUNI. E por uma relação óbvia, fiz o ENEM.  Essa prova era uma recém-nascida em 2003. Ela não causava estranhamentos, reviravoltas no estômago da dita “burguesia” brasileira. Sendo assim, eu não precisei boicotá-lo. Por dois motivos: não faço parte dessa parcela da população e estudei como bolsista integral PROUNI durante dois anos em faculdade particular. Nestes dias, observo toda a agitação entorno do Exame Nacional do Ensino Médio. São pedidos de revisão de notas, rapto de gabaritos, professores de alunos brilhantes insatisfeitos com as notas recebidas e reclamando em rede nacional, problemas técnicos, etc.. Etc... Será que desse tempo para cá inventaram a máfia do ENEM? Ou é besteira minha? Ou será somente a arte do boicote?
©N.P.Freitas.
23 de janeiro de 2012.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Versos de um não sei...



Eu não sei se dormi ou acordei,
Eu não sei se permaneci ou desanimei,
Eu não sei se enlouqueci ou sanei,
Talvez, pensando em ti fiquei,
Durante o dia e a noite inteira.

®N.P. Freitas.


sábado, 21 de janeiro de 2012

Retrocesso/Luís Fernando Veríssimo.

E se não tivessemos mais professores....Segundo Luís Fernando Veríssimo.


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Retrocesso
O visitante estranhou porque, quando o levaram para conhecer a sala de aula do futuro, não havia uma professora-robô, mas duas. A única diferença entre as duas era que uma era feita totalmente de plástico e fibra de vidro — fora, claro, a tela do seu visor e seus componentes eletrônicos —, e a outra aula como ela seria num futuro em que o computador tivesse substituído o professor. O entendimento entre a máquina e as crianças era perfeito. A máquina falava com clareza e era acolchoada. Uma falava com as crianças com sua voz metálica e mostrava figuras, números e cenas coloridas no seu visor, e a outra ficava quieta num canto. Uma comandava a sala, tinha resposta para tudo e centralizava toda a atenção dos alunos, que pareciam conviver muito bem com a sua presença dinâmica, a outra dava a impressão de estar esquecida ali, como uma experiência errada.
O visitante acompanhou, fascinado, uma estava programada de acordo com métodos pedagógicos cientificamente testados durante anos. Quando não entendiam qualquer coisa as crianças sabiam exatamente que botões apertar para que a professora-robô repetisse a lição ou, em rápidos segundos, a reformulasse, para melhor compreensão. (As crianças do futuro já nascerão sabendo que botões apertar.)
— Fantástico! — comentou o visitante.
— Não é? — concordou o técnico, sorrindo com satisfação.
Foi quando uma das crianças, errando o botão, prendeu o dedo no teclado da professora-robô. Nada grave. O teclado tinha sido cientificamente preparado para não oferecer qualquer risco aos dedos infantis. Mesmo assim, doeu, e a criança começou a chorar. Ao captar o som do choro nos seus sensores, a professora-robô desligou-se automaticamente. Exatamente ao mesmo tempo, o outro robô acendeu-se automaticamente. Dirigiu-se para a criança que chorava e a pegou no colo com os braços de imitação, embalando-a no seu colo acolchoado e dizendo palavras de carinho e conforto numa voz parecida com a do outro robô, só que bem menos metálica. Passada a crise, a criança, consolada e restabelecida, foi colocada no chão e retomou seu lugar entre as outras. A segunda professora-robô voltou para o seu canto e se desligou enquanto a primeira voltou à vida e à aula.
— Fantástico! — repetiu o visitante.
— Não é? — concordou o técnico, ainda mais satisfeito.
— Mas me diga uma coisa... — começou a dizer o visitante.
— Sim?
— Se entendi bem, o segundo robô só existe para fazer a parte mais, digamos, maternal do trabalho pedagógico, enquanto o primeiro faz a parte técnica.
— Exatamente.
— Não seria mais prático — sugeriu o visitante — reunir as duas funções num mesmo robô?
Imediatamente o visitante viu que tinha dito uma bobagem. O técnico sorriu com condescendência.
— Isso — explicou — seria um retrocesso.
— Por quê?
— Estaríamos de volta ao ser humano.
E o técnico sacudiu a cabeça, desanimado. Decididamente, o visitante não entendia de futuro.


Luís Fernando Veríssimo.
§N.P.Freitas.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Flores pretas e brancas...

Enquanto espero sentir você, porque tocar eu já toco, eu fico  aqui desenhando flores... Estas flores pretas e brancas expressam a ambiguidade presente na relação minha com aquelas duas longes.

©NPFreitas.

Flores pretas e brancas-Naiana Freitas

Fragmento de Cecília Meireles






“[...]Entre mim e mim, há vastidões bastantes

para a navegação dos meus desejos afligidos.”

Cecília Meireles no poema “Noções”.

©N.P.Freitas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Perdida entre as duas

Perdida entre as duas
Parece que as duas mantém uma relação com a ausência. Ausência que me incomoda. E que me deixa vazia. Como tocar em vocês duas? Já que parecem estar tão longes? E de tão circunscritas em seus espaços deixa a minha escrita de fora? Como faço para concretizar  minhas ideias com vocês? Seus textos tornam tudo convulsão... Penso tanto e nada escrevo perdida. Perdida eu fico do traçado, do rabisco, mas me encontro existencialmente em vocês duas. Como desamarrar o nó? E passar a tecer as palavras escritas? Quanto mais leio me afundo em miasmas... E o meu texto não sai. E, eu entro na loucura.
©N.P.Freitas.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Da série de Possessivos

O excesso de pronomes possessivos nas postagens recentes se explica, não pela posse egoísta de algo, não pela presunção de ser tudo meu como aquele garoto dono da bola na rua pobre, não. Essa série de possessivos possui uma missão: mostrar o que todos vêem, mas não sentem. As fotografias causaram surpresa aos meus vizinhos e familiares, porque quando mostrei as fotos, todos perguntaram: onde foi isso? Em que praia você estava? E minha resposta foi: “tirei as fotos aqui, dali.” Assim, causei muita perplexidade, pois ninguém acreditou... Eles pensaram que cada click foi realizado longe de onde moram.  As imagens são um refúgio na convulsão urbana na cidade do Salvador. E somente o olhar foi o meu.  Ainda bem, que ainda posso sentir a beleza escondida pelos cantos, sem precisar usar nenhuma lente especial para isso. Ainda bem, que ainda posso sentir o belo diante dessa criticidade toda minha. Ainda bem que a vida ainda pode se mostrar bela para mim em alguns raros momentos...
Eh, eu adoraria ser fotógrafa também... E treinar meu olhar tão bem quanto faço na leitura de algumas páginas rápidas...

Para finalizar a série trago a delicadeza do poente amarelado...










©N.P.Freitas.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Meu horizonte...

Pôr- do -sol em Ondina, Salvador.
[foto:Naiana Freitas]

“We all live under the same sky but we don’t all have the same horizon.”
Konrad Adenauer
©Naiana Freitas, 09 de janeiro de 2012.

domingo, 8 de janeiro de 2012

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sobre o filme: “Além da sala de aula” ou “Beyond the Blackboard”

Sobre o filme: “Além da sala de aula” ou “Beyond the Blackboard”


Por estes dias, assisti ao filme “Beyond the Blackboard”[em português :Além da sala de aula]. Esse é um daqueles longas-metragens que sempre gosto de assistir, porque sinto vontade de mudar o mundo e posso ainda ouvir do narrador a frase: baseado em fatos reais. Além disso, este filme nos remete ao ambiente escolar e as suas dualidades.   Se existe um espaço que conjuga toda espécie de sentimentos ao mesmo tempo é a estrutura de ensino.  Podemos obter um colérico ou um sereno dia diante de uma mesma turma. Podemos ficar de galho em galho entre uma escola e outra e no fim do dia ganhar uma frustação ou um contentamento em relação ao desenvolvimento de seu trabalho.
 “Além da sala de aula” conta-nos a trajetória de uma professora recém-formada e sua primeira experiência como docente em uma escola sem nome e sem identidade. Uma escola depósito, uma escola temporária para sem-teto nos Estados unidos. Stacey Bess, a protagonista, tem uma vida pessoal narrada à moda Disney, pois ela tem filhos, marido, só falta-lhe o cachorro... Mas, voltando à carreira profissional de Bess, ela consegue transpor as barreiras da pobreza, descaso, má vontade com maestria. Seu único instrumento: o estudo, ou o caminho que podemos percorrer para encontrá-lo. Busca nem sempre fácil, especialmente para o público de crianças que frequentam as aulas de Stacey em uma espécie de acampamento com poucos quartos e galpões.
A minha crítica insolente, disse para mim todo o tempo “esse enredo é igual a tantos outros que você já assistiu”, como: “Escritores da Liberdade”, “Meu mestre minha vida”, “Mentes perigosas”, mas minha teimosa vontade dissipou as farpas julgadoras e fui às lágrimas como sempre com esse gênero de história.  Stacey Bess torna-se uma heroína para todos aqueles ao seu redor. E neste caso, até para o país, pois recebe prêmios e reconhecimento pelo trabalho realizado. Longe de pensar que no Brasil um percurso assim, promova reconhecimento. Cada dia que passa a carreira de professor do ensino regular, aqui, está ao relento.
Após o fim do filme, só consegui pensar: Minha esperança: é o estudo. Se existe algo em que acredito é nas escadas do conhecimento. E que essa minha esperançazinha continue verdinha mesmo depois de graduada.

©Naiana Freitas, 06 de janeiro de 2012.




quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Na canção...

“[...] O amor precisa da sorte
De um trato certo com o tempo
Pra que o momento do encontro seja pra dois o exato momento
O amor precisa de sol
E do barulho da chuva
De beijos desesperados
De sonhos trocados da ausência de culpa....”

Zé Ricardo.



©Naiana Freitas, 05 de janeiro de 2012.

Meus céus....
















[***Todas as fotos são de minha autoria]



©Naiana Freitas, 05 de janeiro de 2012.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Flor de tinta...[risos]





Adoro tinta...
Naiana Freitas....

Naiana Freitas...


....para fingir pintar! 
©Naiana Freitas, 04 de janeiro de 2012. 

Não sei...[Clarice Lispector]

Não sei...

“[...] Aprendi a dizer “não sei” o que é um orgulho, uma defesa e um mau hábito porque termina-se  mesmo não querendo pensar, além de não querendo dizer”.


 Extraído de: MOSER, Benjamin. Clarice, uma biografia. Tradução José Geraldo couto. São Paulo: Cosac Naify, 2009.p. 264.


©Naiana Freitas, 04 de janeiro de 2012. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Livro da Solidão/Cecília Meireles

O Livro da Solidão/Cecília Meireles


Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?"

Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)

[Fonte: http://www.releituras.com/cmeireles_olivro.asp. Para saber mais  investigue o menu da autora no Projeto Releituras.]


©Naiana Freitas,03 de janeiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

"Rainer Maria Rilke para você"em vídeo.

 “Rainer Maria Rilke para você"em  vídeo.

Antes que os aumentos cheguem. Antes que o trânsito em Salvador piore. Antes que o carnaval brote em cada canto da cidade... Vamos respirar um pouco... Buscar um pouco de energia no mundo encantado das palavras! Por isso, começo as postagens deste ano com poesia.  Este vídeo é uma versão do poema outrora postado aqui no blog. Espero que  “as letras” tragam um lenitivo para esse ano par em aparência e ao mesmo tempo ímpar quando olhamos mais  profundamente.

Muitas palavras escritas, cantadas, recitadas, suspiradas em 2012 para todos!!



©Naiana Freitas, 02 de janeiro de 2012