sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Arthur Schnitzler e a sua Senhorita Else

Senhorita Else equivale a uma injeção de adrenalina na corrente sanguínea. Li este livro em uma única respiração. Quando cheguei ao fim, precisei de muito ar para voltar a respirar normalmente. O estilo de escrita traz um denso “fluxo de consciência” da protagonista, do princípio ao fim. Devido a essa técnica narrativa, ler este livro causa uma irritação nas primeiras páginas, pois iniciamos sua leitura perdidos. Mas, após uma leitura atenta, nós somos impelidos a agir e a perceber o universo ao redor de Else como se tivéssemos sendo sugados para um mergulho. Ou afogamento? No início, acredito que sentimos por conta própria as braçadas da protagonista, então é uma imersão. Mas, no fim, somos afogados. Somos levados à força a entrar na “psicologisse” da personagem. E na conclusão, estamos nos debatendo, como ela, entre estreitas paredes brancas sem água nenhuma.

Esse livro é de um teor psicológico surpreendente. Somente um iniciado na prática psicanalítica poderia fornecer elementos tão convincentes na elaboração do enredo, atmosfera, personagens. O pequeno romance retrata todo imaginário produzido ao redor das mulheres durante o século XIX e início do XX. Else possui características que a classificariam como a histérica. Questões ligadas ao seu sexo biológico determinam suas reações. Por exemplo, seu útero é o iniciador de sua “loucura”, como em: “[...] Na noite passada  também  já  dormi pessimamente. Evidentemente aproximam-se aqueles dias. Por isso é que sinto dores nas pernas. Hoje é 3 de setembro; provavelmente, portanto no seis. Vou tomar veronal, hoje. Não quero me acostumar com ele.”(SCHNITZLER,1985,p.11). Além disso, os desejos sexuais de Else são reprimidos por ela mesma, ao mesmo tempo em que notamos seu impulso sexual similar a de qualquer humano.

Qualquer palavra escrita aqui, sobre essa senhorita possui um único objetivo: instigar a aventura de ler um livro desassossegado como este. É verdade que por excesso de “frescura” ingressei no enredo tão intensamente que passei mal no final. Foi a Else lá do mundo do maravilhoso me pregando uma peça... Eu que já conhecia esse autor, confirmo em mais essa leitura que ele foi um dos gênios de seu século.  Só tenho uma crítica à edição, percebem-se alguns escorregões na tradução e na escolha de palavras, mas como um passarinho me contou: tradução é um texto novo dentro dos limites daquele produzido pelo autor.


Referência:
Schnitzler, Arthur. Senhorita Else. Tradução: Marijane Lisboa. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1985.
©Naiana Freitas, 17 de  Feverreiro de 2012

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