sexta-feira, 2 de março de 2012

O morto

O morto

Era um dia normal, o sol nasceu do lado que sempre nasce. Naquele dia, na hora que saiu não havia ninguém na rua. Aliás, poderíamos contar quatro pessoas: um homem com um short amarelo e uma gaiola na esquina; uma mulher despenteada na janela; um rapaz armando sua barraca em frente de casa e um motorista que passou de janela aberta falando ao celular. Eram quatro pessoas com ela cinco.
Naquele dia, a moça com a saia de bolinha estava com pressa. Ela andava rápido que antes de chegar a mim já havia tomado quatro topadas. Não sei se blasfemou alguma coisa, mas na face estampou dor. As topadas foram sucessivas, cada qual a cada três passadas. Nesse ínterim, seu telefone tocou. Ela receou atender. Em insistência e insistência retirou da bolsa o aparelho, olhou o visor. Desinteressou-se e o recolocou na bolsa.
Ela caminhava agora pela terceira rua, a rua mais estreita. Havia um resto de mim lá. Não sei que parte poderia ser o resto, porque aparentemente eu estava morto, lamentavelmente morto. E, se, realmente vivesse naquele instante, gostaria que ela fosse minha. Muito jovem e de uma graça interna que me contagiou. No ângulo que a observava não percebi o que segurava nas mãos. Só sei que ela me olhou. Não uma vez, não duas, foram quatro vezes. Na primeira vez foram olhos de espanto, na segunda vez foram olhos de piedade, na terceira vez foram olhos de raiva. Na quarta e última vez, foram olhos de paixão que desejei estar vivo. Os olhares foram rápidos, porém, penetrantes. Como eu pude avistá-los, não sei, pois os meus olhos estavam cerrados. Insisti em abri-los, mas não consegui, estavam pesados, densos, selados.
A jovem de bolinhas na roupa congelou o meu tempo, meus instantes de tempo, os meus momentos finais em alguma espécie de vida, pois, estava morto. Um carro vermelho de lataria brilhante surgiu na transversal daquela rua. E como um ponto vermelho, o pensamento acendeu. Para que serve um corpo depois de morto? Para que serve um corpo doente? Para quê serve tudo? Quando o seu coração para em um mal súbito. Como aquela família de seis irmãos que morreram do coração um após o outro, naqueles velórios sem mais lágrima alguma? O ponto vermelho de fosco ficou opaco e chegou perto. O carro vermelho por fração de segundos quase a atropelou. Sua saia de bolinhas esvoaçou.
O susto a fez recuar com duas passadas para trás. Aquela rua era perigosa. Restabeleceu-se e lançou a última olhada. Ela sentiu como ele, também, sentiu a suave e quente paixão que transbordava dela para o corpo morto. Avistou o ônibus que vinha ao longe, correu e o alcançou depois foi esquecendo mansamente dele. O telefone tocou novamente, interessou-se. E na pergunta ouvida disse com tristes palavras:
-Vi um cachorro hoje morto na rua.
02.03.12


®Naiana Freitas, 02 de março de 2012.

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