terça-feira, 26 de junho de 2012

Minha Opinião e Crônica: Dies Irae/Clarice Lispector


A crônica “Dies Irae” ou o dia de Ira me deixou sem ar essa manhã... Aproveitei fiz minhas marcações habituais e não resisti em procurar o texto na rede. Pelos grifos meus pode-se ver o quanto a crônica estraçalhou-me. E o quanto cada frase carregada de sentido penetrou em meus sentidos. De tudo eu li ai. Desde o cristianismo a psicanálise, desde o existencialismo a agudez da tristeza.
Esta crônica foi escrita em 1967. Fiquei mais sem ar! Ah Clarice que perfeição!
Vamos à crônica...

DIES IRAE

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece. E nem ao menos posso fazer o que uma menina semiparalítica fez em vingança: Quebrar um jarro. Não sou semiparalítica. Embora alguma coisa em mim diga que somos todos semiparalíticos. E morre-se, sem ao menos uma explicação e o pior – Vive-se, sem ao menos uma explicação. E ter empregadas, chamemo-las de uma vez de criadas, é uma ofensa à humanidade. E ter a obrigação de ser o que se chama de apresentável me irrita. Por que não posso andar em trapos, como homens que às vezes vejo na rua com barba até o peito e uma bíblia na mão, esses deuses que fizeram da loucura um meio de entender? E por que, só porque eu escrevi, pensam que tenho que continuar a escrever? Avisei a meus filhos que amanheci em cólera, e que eles não ligassem. Mas eu quero ligar. Quereria fazer alguma coisa definitiva que rebentasse com o tendão tenso que sustenta meu coração.
E os que desistem? Conheço uma mulher que desistiu. E vive razoavelmente bem: O sistema que arranjou para viver é ocupar-se. Nenhuma ocupação lhe agrada. Nada do que eu já fiz me agrada. E o que eu fiz com amor estraçalhou-se. Nem amar eu sabia, nem amar eu sabia. E criaram o dia dos analfabetos. Só li a manchete, recusei-me a ler o texto. Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre. E quem não espera o milagre está ainda pior, ainda mais jarros precisaria quebrar. E as igrejas estão cheias dos que temem a cólera de Deus. E dos que pedem a graça, que seria o contrário da cólera.
Não, não tenho pena dos que morrem de fome. A ira é o que me toma. E acho certo roubar para comer. - Acabo de ser interrompida pelo telefonema de uma moça chamada Tereza que ficou muito contente de eu me lembrar dela. Lembro-me: Era uma desconhecida, que um dia apareceu no hospital, durante os quase três meses onde passei para me salvar do incêndio. Ela se sentara, ficara um pouco calada, falara um pouco. Depois fora embora. E agora me telefonou para ser franca: Que eu não escreva no jornal nada de crônicas ou coisa parecida. Que ela e muitos querem que eu seja eu própria, mesmo que remunerada para isso. Que muitos tem acesso a meus livros e que me querem como sou no jornal mesmo. Eu disse que sim, em parte por que também gostaria que fosse sim, em parte para mostrar a Tereza, que não me parece semiparalítica, que ainda se pode dizer sim.
Sim, meu Deus. Que se possa dizer sim. No entanto neste mesmo momento alguma coisa estranha aconteceu. Estou escrevendo de manhã e o tempo de repente escureceu de tal forma que foi preciso acender as luzes. E outro telefonema veio: De uma amiga perguntando-me espantada se aqui também tinha escurecido. Sim, aqui é noite escura às dez horas da manhã. E a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver. Porque se não voltar o dilúvio, voltarão Sodoma e Gomorra, que era a solução. Por que deixar entrar na arca um par de cada espécie? Pelo menos o par humano não tem dado senão filhos, mas não a outra vida, aquela que, não existindo, me fez amanhecer em cólera.
Tereza, quando você me visitou no hospital, viu-me toda enfaixada e imobilizada hoje você me veria mais imobilizada ainda. Hoje sou a paralítica e a muda. E se tento falar, sai um rugido de tristeza. Então não é cólera apenas? Não, é tristeza também.
Naiana Freitas, 26 de junho de 2012.


Referência virtual:
Referência impressa:
LISPECTOR, Clarice. Dies Irae. In: Idem. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 37-38.

No passo...

Sua alma calada espera   a minha: que de passo em passo te envolve; que de passo em passo te descompassa no passo incompassado da agonia.

Naiana Freitas, 17 de abril de 2012.

Citação crônica: "Brincar de pensar" - Clarice Lispector

"[...]Exige-se tanto de quem ouve as palavras e os silêncios - como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais."


LISPECTOR, Clarice. A descoberta do mundo.Rio de Janeiro:Rocco, 1999. p. 24

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Unboxing: A DESCOBERTA DO MUNDO - CLARICE LISPECTOR


Meu irmão é um telespectador de vídeos que mostram desembalando produtos na internet. O nome destes vídeos é: unboxing. Ou seja, desencaixotamento ou ação de desencaixar. Ele sempre me apresenta um destes, com o vídeo game do momento, Ipod, guitarra, jogo, eletroeletrônicos, acessórios de jogos etc... Assim, foi dele a ideia de criar um unboxing de livro. Ele me disse: “Já que você compra muitos livros pela internet, poderia gravar desencaixotando eles... Vai que ajuda alguém que está na dúvida comprar o livro?” Mostrar livros para mim sem problemas... E livros que tenho então... Que recebi... Ganhei. Melhor ainda!
Por isto aceitei a proposta, na verdade uma brincadeira. Não me custava nada criar alguma coisa. Já que ultimamente não escrevo nada prazeroso, nada que valha um real.
Depois, achei que o vídeo ficou sincero, esqueci que tinha uma câmera filmando. Cortei até umas besteiras que falei. Piadas malucas, por exemplo, usando um áudio engraçado... O unboxing é do Livro A descoberta do mundo de Clarice Lispector, ele veio somar a minha coleção!! A minha família de livros está aumentando e em breve para minha alegria e de minha mãe encomendei uma nova estante para eles. Como diz minha irmã cuido mais dos meus livros do que do meu cabelo, unhas e etc. risos.
Assistam ao vídeo... “Unboxing de livro” essa é boa... [risos]











Achei engraçado...

Naiana Freitas, 25 de junho de 2012.

domingo, 24 de junho de 2012

Feliz São João!!!


O Google nem homenageou nossa festa!
risos...


Foto e colagem...[NPF]


Naiana Freitas, 24 de junho de 2012.

sábado, 23 de junho de 2012

TEMPO INCERTO / Cecília Meireles



Os homens têm complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada: para se fazer alguma coisa é preciso aliar a um impulso de aventura grandes sombras de dúvida. Não se acredita mais nem na existência de gente honesta; e os bons têm medo de exercitarem sua bondade, para não serem tratados de hipócritas ou de ingênuos.
Chegamos a um ponto em que a virtude é ridícula e os mais vis sentimentos se mascaram de grandiosidade, simpatia, benevolência. A observação do presente leva-nos até a descer dos exemplos do passado: os varões ilustres de outras eras terão sido realmente ilustres? Ou a história nos está contando as coisas ao contrário, pagando com dinheiros dos testamentos a opinião dos escribas?
Se prestarmos atenção ao que nos dizem sobre as coisas que nós mesmos presenciamos - ou temos que aceitar a mentira como a arte mais desenvolvida do nosso tempo, ou desconfiaremos do nosso próprio testemunho, e acabamos no hospício!
Pois assim é, meus senhores! Prestai atenção às coisas que vos contam, em família, na rua, nos cafés, em várias letras de forma, e dizei-me se não estão incertos os tempos e se não devemos todos andar de pulga atrás da orelha!
A minha esperança estava no fim do mundo, com anjos descendo do céu; anjos suaves e anjos terríveis; os suaves para conduzirem os que se sentarão à direita de Deus, e os terríveis para os que se dirigem ao lado oposto. Mas até o fim do mundo falhou; até os projetos se enganam, a menos que as rezas dos justos tenham podido
adiar a catástrofe qu
e, afinal, seria também uma apoteose. E assim continuaremos a quebrar a cabeça com estes enigmas cotidianos.
No tempo de Moliêre, quando um criado dava para pensar, atrapalhava tudo. Mas agora, além dos criados, pensam os patrões, as patroas, os amigos e inimigos de uns e de outros e todo o resto da massa humana. E não só pensam, como também pensam que pensam! E além de pensarem que pensam, pensam que têm razão! E cada um é o detentor exclusivo da razão!
Pois de tal abundância de razão é que se faz a loucura. Os pedestres pensam que devem andar pelo meio da rua. Os motoristas pensam que devem pôr os veículos nas calçadas. Até os bondes, que mereciam a minha confiança, deram para sair dos trilhos. Os analfabetos, que deviam aprender, ensinam! Os ladrões vestem-se de policiais, e saem por aí a prender os inocentes! Os revólveres, que eram considerados armas perigosas, e para os quais se olhava a distância, como quem contempla a Revolução Francesa ou a Guerra do Paraguai - pois os revólveres andam agora em todos os bolsos, como troco miúdo. E a vocação das pessoas, hoje em dia, não é para o diálogo com ou sem palavras, mas a balas de diversos calibres.
Perto disso, a carestia da vida é um ramo de flores. O que anda mesmo caro é a alma. E o demônio passeia pelo mundo, glorioso e impune.
 Referência: 
MEIRELES,Cecília. Escolha seu sonho. São Paulo: Círculo do livro, 1976. p. 61-63.



***Nota da blogueira***:
Tentei reproduzir com maior fidelidade o texto.Esta crônica faz parte do livro: "Escolha seu sonho". Ganhei este livo em Janeiro de 2012. Algumas crônicas ficaram comigo. Como a que compartilho com vocês.  Tempo incerto possui uma atualidade que nos supreende! Os gênios são assim descobrem os mecanismos da vida muito antes de nós.
Naiana Freitas, 23 de junho de 2012.



quinta-feira, 21 de junho de 2012

Mais caixas...

Naiana  Freitas

Naiana Freitas


Caixas recicladas....

Naiana Freitas, 21 de junho de 2012. 

sábado, 16 de junho de 2012

Esbarrei com o mito de Pigmalião....



É interessante pensar como nunca estamos vencidos nesta vida. De repente eis que surge uma ideia, um estudo, uma curiosidade, imagem que te desperta do caos da repetição. Assim, até a última semana, eu não conhecia o mito de Pigmalião. Conheci-o nas discussões da aula de teatro em língua inglesa. Este mito é mais uma prova de como me rendo aos pés dos gregos e da sua fantástica máquina de inventar explicações para a vida. Neste caso, tenho particular atenção a essa cultura porque bebo na projeção de mundo do povo ocidental e blá-blá- blá, mas não vem ao caso discutir isto...

Encontrei esse mito “sob e sobre” a escrita de Bernard Shaw, na peça de mesmo nome: “Pygmalion”. De forma superficial, delineio o enredo da peça:  Eliza uma vendedora de flores deseja ser aceita socialmente. Para isto, ela busca aprimorar o seu inglês com a ajuda de um professor de fonética.  A peça traz, em minha opinião, o uso da linguagem como um degrau para alavancar socialmente. A linguagem neste caso pode estar metaforizada, pois podemos pensar no estudo científico como forma de ascensão.

O mito de Pigmalião conta-nos sobre a história de amor entre criador e criatura. O escultor admira sua criação, vive por ela e deseja-a em carne e osso. [Maiores informações sobre o mito em: http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0655] . Na discussão em teatro, estabeleci uma relação diferente entre o mito e a peça. Pois a fiz de acordo com um ponto de vista que, trazia como referencial o enredo da peça. Aqui, faço outra conexão com o mito, na verdade aproximo- o de minha realidade de tentar esculpir palavras.

Neste caso, não restrinjo a escultura de palavras à literatura, mas vou além, até as produções científicas. Pensei nisso, porque quando produzimos algo nesta vastidão de mundo, pensamos que estamos sendo tão originais. Pensamos que demos vida a um novo discurso... E criamos essa relação de amor com o que produzimos. Não que seja ruim, pois quem gosta de escrever sabe como um texto escrito mesmo com suas bobagens equivale a sessões e sessões com psicanalista e sem custo algum. Na verdade, fiquei pensando, na paixão que nos move para esculpir algo e depois cair de amores por isto, aquilo... E como assim como o escultor que ficou afastado da vida e das mulheres reais, somos compelidos a nos interiorizar mais e mais neste mundo cão que late para os escolhidos.

Referências:
Peça:PYGMALION By George Bernard Shaw http://www2.hn.psu.edu/faculty/jmanis/gbshaw/Pygmalion.pdf

Naiana Freitas, 16 de junho de 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Fragmento/Água viva


A densa selva de palavras envolve espessamente o que sinto e vivo, e transforma tudo o que sou em alguma coisa minha que fica fora de mim. “

Clarice Lispector

LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de janeiro: Rocco, 1998.p.23

domingo, 10 de junho de 2012

Em épocas difíceis: uma exposição de flores reais.


Foto : Naiana Freitas
Foto : Naiana Freitas
Foto : Naiana Freitas
Foto : Naiana Freitas
Foto : Naiana Freitas
                                       Foto : Naiana Freitas


Leitura acalma o meu cérebro e flores agradam minha visão....
Que tempo difícil é esse? São tempos emperrados como estes que me apavoram!
Ainda bem que tenho livros e as flores de minha mãe...

Naiana Freitas, 10 de junho de 2012. 






sexta-feira, 8 de junho de 2012

“Sins & nãos”

Para distrair ou qualquer coisa ....talvez rir e passar o tempo...


*****

“Sins & nãos”



Detesto dizer não,
Mas, tenho que dizer não também.
Desteto o não
Amo-o também.

Detesto dizer sim,
Mas, tenho que dizer sim também.
Detesto o sim,
Amo-o também.

Detesto os sins, os nãos.
Mas, tenho que sentir a falta de alguém.

Detesto em mim
O que não odeio em ti,
Amo-te talvez sim,
Amo-te talvez não,
Também
 ou além.

Naiana Freitas, 27 de agosto de 2009.

Sobre Persuasão de Jane Austen.





A narrativa Persuasão é bastante familiar aos leitores de hoje, pois se assemelha a um enredo de uma comédia romântica. Neste caso, tal comparação não é depreciativa, pois em termos de qualidade estética o livro é inigualavelmente superior. Por quê? Porque este livro precede todas as narrativas fílmicas da atualidade. É um Clássico, como disse o Ítalo Calvino, e se utilizo o termo superior é porque não tenho nenhum outro termo para substitui-lo. Não faço uso de pedantismo.
Os termos como violação de honra, dote, herança, falência da aristocracia são bastante mencionados. A narrativa se desenvolve de forma linear, sem sobressaltos. Tudo está ali disposto de forma clara ao leitor e o que descobrimos em meio a narrativa os personagens também descobrem ao mesmo tempo em que nós. Para o leitor que gosta de fazer previsões, fazer conjecturas acerca das futuras ações do livro torna-se um divertido exercício.
Quanto a Anne Eliot senti uma profunda simpatia. Identifiquei-me com ela, seja por sua faixa etária, seja pelas suas inadaptações naquela sociedade que vivia. Jane Austen, através da personagem, desenvolve bons argumentos sobre a condição da mulher em sua época. Questionamentos que, seriam discutidos posteriormente pelo feminismo. Abaixo selecionei uma parte do diálogo entre a Anne Eliot e o capitão Harville.

[capitão Harville] - Mas deixe-me observar que todas as histórias estão contra a senhorita...todas as histórias prosa e verso.[...]poderia num instante apresentar-lhe cinquenta citações a favor do meu argumento e não acredito ter jamais aberto um livro na vida que não tivesse algo a dizer a respeito da inconstância feminina. Canções e provérbios, todos falam da volubilidade das mulheres. Mas talvez vá me dizer que foram todos escritos por homens.

[Anne Eliot] – Talvez. Sim, sim, por favor, sem referencias a exemplos em livros. Os homens sempre tiveram vantagens sobre nós ao contar a sua própria história. Sempre receberam um grau muito maior de instrução, a pena sempre esteve em mãos masculinas. Não permitirei que livros provem o que quer que seja.

(AUSTEN, 2011, p.236)

Referências:
AUSTEN, Jane. Persuasão. Tradução de Celina Portocarrero. Porto Alegre: L&PM, 2011.p.236. Coleção L&PM Pocket, v.948.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Citação- Cazuza


Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito

                                                                                                                                                                                   Ah! eu nem acredito...


Cazuza  
[trecho  da  música : Ideologia. disponível em:  

domingo, 3 de junho de 2012

Poesia...

Estou muito cansada para sentir a poesia que há em mim.


Naiana Freitas, 03 de junho de 2012.

um viva!

Um viva ao transporte público mais precário !
Um viva ao ônibus mais caro e que você vai em pé...se conseguir entrar no ônibus.
Um viva a todas as paralizações que não dão em nada...

Um viva por perceber que sou uma subalternizada desoprimida. 

Um viva a ironia que não é passageira.
Um viva ao ceticismo,
meu de cada dia.

Naiana Freitas, 03 de junho de 2012.