sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Lisbon Revisited (1923)/Álvaro de Campos/Fernando Pessoa


Lisbon Revisited (1923)

Não: não quero nada,
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, deus meu, das ciências!)
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica
Fora disso sou doido, com todo o direito de sê-lo.
Com todo direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrario disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada querem que eu seja da companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
                   
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada. Lisboa de outrora de hoje!
Nada  me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!


Poema de Álvaro de campos.


CAMPOS, Álvaro de. Lisbon Revisited (1923). In: PESSOA, Fernando. O eu profundo e outros eus. Seleção de Afrânio Coutinho. Rio de janeiro: nova fronteira, 2006.p. 315-317.

Nota blogueira:

Nunca referenciei um heterônimo. Então, citei conforme a lógica ABNT de sempre.

Naiana Freitas, 24 de Agosto de 2012.

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