terça-feira, 11 de dezembro de 2012

“Mãe, eu ganhei um bebê no ônibus”.



Há uns três meses, eu peguei um ônibus. No meio do caminho, esbarrei com uma mulher e uma criança, lamentavelmente não foi com uma pedra. A mulher transtornada entrou no ônibus com um bebê no colo, novinho.  Como eu estava nas cadeiras da frente, ela quase jogou a criança no meu colo para que carregasse. Disse- me: “segura para mim!” Eu recusei, levantei e dei o meu lugar. Ela não quis. Empurrava-me o menino para que eu o segurasse.  Neguei, neguei e neguei.  Não havia lógica nisso... a passageira que estava ao meu lado se comoveu com o empurra-empurra e carregou. A mãe, ou a criatura que entrou com ele no colo, iniciou uma doutrinação no ônibus. Se eu acreditava ser ilógico segurar aquela criança, imagina agora que descobri que a ele na verdade era apenas uma sacola. A mulher iniciou as orações... Indignada virei para a passageira e disse: “Não tem lógica isso...”. Após um tempo, a passageira ao meu lado, esticou as mãos e me entregou a criança dizendo: “vou soltar!”. Simples, assim. O menino veio para meu colo. Eu não fazia ideia de como segurá-lo. Estava com minha bolsa, livros e etc. Uma senhora sentou ao lado e me ajudou com a bolsa. E, eu fui com o bebê, estranhamente fui. A senhora estava com a filha e elas acreditaram que fosse meu filho. Um filho concebido em moldes de ficção cientifica. Novo modelo de gerar bebês: você entra no ônibus pela porta traseira e desce a dianteira com um bebê em seu colo. O menino era uma criança linda. Eu perguntava à senhora: “é assim que segura, né? eu não sei, eu estou apenas segurando para a mãe...” A senhora e a filha assustadas disseram em coro: Como não é seu filho? Cadê a mãe?”“. Suando como aquelas personagens de Mangá de tão sem graça, repliquei: “a mãe é essa que está falando e pedindo dinheiro”.  Pronto, a desordem se aproximou mais de mim. Elas ficaram achando que a criatura iria descer do ônibus e largar o filho comigo, e eu já estava pensando que iria parar na delegacia, para devolver a criança.  Depois, uma tocante piedade se apossou de mim, o menino dormia tão bem nos braços de uma desconhecida sem jeito. Que cheguei a cogitar um telefonema a minha mãe: “mãe, ganhei um bebê no ônibus”. As senhoras desceram e eu continuava com a criancinha. Um rapaz achou que o era meu e começou a me ajudar... Ele já iria me perguntar o nome, essas coisas assim. Quando a criatura terminou sua ladainha e puxou o menino de mim. Ela puxou por cima da cadeira, o bebê que dormia e nem sei se disse obrigada. O rapaz, coitado, olhou para minha cara sem entender... Eu disse: “O filho não é meu não, eu só estou segurando.”  Nesse desfecho, provavelmente fui julgada por ele, como uma mãe desnaturada.
Sim, sim podem rir. Agora tudo para mim tornou-se engraçado, mas suei frio nesse episódio. E desse dia para cá, venho coletando situações mais grotescas que não me deixam escapar à afirmativa: Salvador entrou no hall das metrópoles. Muitas pessoas com transtornos mentais, emocionais, financeiros. Enormes engarrafamentos a qualquer hora do dia. A cidade tornou-se comprida e empalideceu também. Fanáticos religiosos profetizando o fim do mundo.   E de quebra disseminando a contradição. Como esta senhora no ônibus que lia as vantagens do Reino dos Céus e em contrapartida usava o filho tão terno como chamariz para receber algumas moedas.

Naiana Freitas, 11 de dezembro de 2012.

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