domingo, 31 de março de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

O medo/Carlos Drummond de Andrade


   A Antonio Candido

        "Porque há para todos nós um problema sério...
         Este problema é o do medo."
                   (Antonio Candido, Plataforma de Uma Geração) 


Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.



Disponível em: http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond20.htm


Naiana Freitas, 27 de março de 2013.



segunda-feira, 18 de março de 2013

Ser Poeta/ Florbela Espanca


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

     
DISPONÍVEL EM: http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v314.txt.

Naiana Freitas,18 de março de 2013.
                           

sábado, 16 de março de 2013

Citação de Constância Lima Duarte



O trecho abaixo faz parte de uma  seção do artigo:Feminismo e literatura no Brasil, de Constância Lima Duarte. A discussão promovida por Duarte é tão pertinente que me ousei a copiar aqui, todo o trecho. Pensei assim: quem sabe alguém se interessa e lê o artigo completo? Segue o trecho intitulado: O tabu do feminismo.

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O tabu do feminismo 


Diferente do que ocorre em outros países, existe entre nós uma forte resistência em torno da palavra “feminismo”. Se lembrarmos que feminismo foi um movimento legítimo que atravessou várias décadas, e que transformou as relações entre homens e mulheres, torna-se (quase) inexplicável o porquê de sua desconsideração pelos formadores de opinião pública. Pode-se dizer que a vitória do movimento feminista é inquestionável quando se constata que suas bandeiras mais radicais tornaram-se parte integrante da sociedade, como, por exemplo, mulher frequentar universidade, escolher profissão, receber salários iguais,candidatar-se ao que quiser.... Tudo isso, que já foi um absurdo sonho utópico, faz parte de nosso dia a dia e ninguém nem imagina mais um mundo diferente. Mas se esta foi a vitória do movimento feminista, sua grande derrota, a meu ver, foi ter permitido que um forte preconceito isolasse a palavra, e não ter conseguido se impor como motivo de orgulho para a maioria das mulheres. A reação desencadeada pelo antifeminismo foi tão forte e competente, que não só promoveu um desgaste semântico da palavra, como transformou a imagem da feminista em sinônimo de mulher mal amada, machona, feia e, a gota d’água, o oposto de “feminina”. Provavelmente, por receio de serem rejeitadas ou de ficarem “mal vistas”, muitas de nossas escritoras, intelectuais, e a brasileira de modo geral, passaram enfaticamente a recusar tal título. Também é uma derrota do feminismo permitir que as novas gerações desconheçam a história das conquistas femininas, os nomes das pioneiras, a luta das mulheres de antigamente que, de peito aberto, denunciaram a discriminação, por acreditarem que, apesar de tudo, era possível um relacionamento justo entre os sexos.



Referência completa:
DUARTE, Constância Lima. Feminismo e literatura no Brasil. Estudos Avançados. São Paulo, v. 17, n. 49, p.151-172. Dez. 2003.

Naiana Freitas, 16 de março de 2013.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Os Dois Lados/Murilo Mendes




Deste lado tem meu corpo
Tem o sonho
Tem a minha namorada na janela
Tem as ruas gritando de luzes e movimentos
Tem meu amor tão lento
Tem o meu anjo da guarda
Que às vezes se esquece de me guardar
Tem o mundo batendo na minha memória
Tem o caminho para o trabalho.

Do outro lado tem outras vidas vivendo a minha vida
Tem pensamentos sérios me esperando na sala de visitas
Tem minha noiva definitiva me esperando com flores na mão
Tem a morte, as colunas da ordem e da desordem.


MENDES, Murilo. Poemas. In: idem. Poesia completa e prosa. Rio de janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.98.


Naiana Freitas, 14 de março de 2013.

Dia da Poesia...


Que dia da poesia fraco. Claro, não vende.
Diferente do "dia internacional da Mulher" ...que até empresa de margarina distribuiu felicitações....

Eu só posso dizer, mas uma vez: a poesia é minha fita vedante ao barulho do mundo.....



Naiana Freitas, 14 de março de 2013.

Entre a Clarice Lispector e o Carlos Drummond de Andrade: EU

Clarice (Lispector) sei que é desapegada. Conheço o signo que a rege, mas não posso esconder de você que ando me encontrando com o Carlos Drummond de Andrade.


Naiana Freitas, 14 de março de 2013.

domingo, 10 de março de 2013

Balanço/ Carlos Drummond de Andrade


A pobreza do eu
a opulência do mundo

A opulência do eu
a pobreza do mundo

A pobreza de tudo
a opulência de tudo

A incerteza de tudo
na certeza de nada.



Disponível em: 
http://letras.cifras.com.br/carlos-drummond-de-andrade/balanco



Nota da blogueira:
Por coincidência li esse poema hoje, tudo a ver com tudo.





Naiana Freitas, 10 de março de 2013.

Morte




A morte é o quebra-mole maior da vida. Por isso é sua opositora perfeita.



Naiana Freitas, 10 de março de 2013.

sábado, 9 de março de 2013

Poema da pergunta (ou qualquer coisa parecida).


O que faço com a  minha indignação?
Ponho no bolso...
Se o bolso for falso
Compro uma bolsa
Se a bolsa pesar?
Ponho no armário...
Se o armário quebrar?
Ponho na ponta do lápis
Se o lápis perder?
Ponho digitada,
Enjaulada,
Em papel oficio.

Quando morrer...
Sem bolso, armário,
 Lápis na mão...
Colem no caixão
O ofício escrito:
"Aqui jaz uma indignada nativa,
Levou consigo a indignação."

Naiana Freitas, 09 de março de 2013.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Maldição/Olavo Bilac (1865-1918)





Se por vinte anos, nesta furna escura,
Deixei dormir a minha maldição,
_ Hoje, velha e cansada da amargura,
Minha alma se abrirá como um vulcão.
E, em torrentes de cólera e loucura,
Sobre a tua cabeça ferverão
Vinte anos de silêncio e de tortura,
Vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...


Naiana Freitas, 08 de março de 2013.

domingo, 3 de março de 2013

A alegria mansa-trecho/Clarice Lispector



Pois a hora escura, talvez a mais escura, em pleno dia, precedeu essa coisa que não quero sequer tentar definir. Em pleno dia era noite, e essa coisa que não quero ainda tentar definir é uma luz tranquila dentro de mim, e a ela chamariam de alegria, alegria mansa. Estou um pouco desnorteada como se um coração me tivesse sido tirado, e em lugar dele estivesse agora a súbita ausência, uma ausência quase palpável do que era antes um órgão banhado da escuridão diurna da dor. Não estou sentindo nada. Mas é o contrário de um torpor. É um modo mais leve e mais silencioso de existir.  

Mas estou também inquieta. Eu estava organizada para me consolar da angústia e da dor. Mas como é que me consolo dessa simples e tranquila alegria? É que não estou habituada a não precisar de consolo. A palavra consolo aconteceu sem eu sentir, e eu não notei, e quando fui procurá-la, ela já se havia transformado em carne e espírito, já não existia mais como pensamento.  

Vou então à janela, está chovendo muito. Por hábito estou procurando na chuva o que em outro momento me serviria de consolo. Mas não tenho dor a consolar.  

Ah, eu sei. Estou agora procurando na chuva uma alegria tão grande que se torne aguda, e que me ponha em contato com uma agudez que se pareça com a agudez da dor. Mas é inútil a procura. Estou à janela e só acontece isto: vejo com olhos benéficos a chuva, e a chuva me vê de acordo comigo. Estamos ocupadas ambas em fluir. Quanto durará esse meu estado? Percebo  que, com essa pergunta, estou apalpando meu pulso para sentir onde estará o latejar dolorido de antes. E vejo que não há o latejar da dor. Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva. E eu não estou agradecendo nada. Não tivesse eu, logo depois de nascer, tomado involuntária e forçadamente o caminho que tomei - e teria sido sempre o que realmente estou sendo: uma camponesa que está num campo onde chove. Nem sequer agradecendo a Deus ou à natureza. A chuva também não agradece nada. Não sou uma coisa que agradece ter se transformado em outra. Sou uma mulher, sou uma pessoa, sou uma atenção, sou um corpo olhando pela janela. Ela é uma chuva. Talvez seja isso que se poderia chamar de estar vivo. Não mais que isto, mas isto: vivo. E apenas vivo é uma alegria mansa.  

LISPECTOR, Clarice. A alegria mansa-trecho. In: Idem. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 98-99.

Naiana Freitas,03 de março de 2013.

Mas já que se há de escrever/Clarice Lispector


“Mas já que se há de escrever, que ao menos não esmaguem as palavras nas entrelinhas”.




LISPECTOR, Clarice. Mas já que se há de escrever. In: Idem. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 201.

Naiana Freitas,03 de março de 2013.

sexta-feira, 1 de março de 2013

Ismália/ Alphonsus de Guimaraens



Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Disponível em: http://www.releituras.com/alphonsus_ismalia.asp. Acesso em: 01 de mar. de 2013

Naiana Freitas, 01 de março de 2013.