segunda-feira, 29 de abril de 2013

Não desafio “o Deus” porque esse Deus não é o meu


  Uma senhora foi incendiada em São Paulo em razão de trinta reais, uma jovem enfermeira foi alvejada no rosto e pescoço em Feira de Santana (BA), uma menina de 5 anos foi violentada repetidas vezes na Índia, uma mulher  foi abusada, torturada em alguma outra cidade da Bahia...Os dados crescem e se irradiam. Estamos em perigo, não apenas nós mulheres. De forma mais ampla a humanidade inteira. E mesmo que as grandes potências econômicas mundiais queiram me convencer (ou nos convencer) que existe sempre um inimigo, um inimigo estrangeiro, desconhecido, eu infelizmente, muito infelizmente digo não, não acredito nessa teoria. É infelizmente, porque adoraria estar agora empolgada com a “nova invenção baiana” (nova?) chamada caixiola, ou com o novo hit de pagode, ou com a moda da novela, ou com um último filme, mas não. Eu estou ao avesso disso tudo só porque eu afirmo: o nosso verdadeiro inimigo, somos nós, a humanidade inteira. Nós somos nossa própria arma notória.
   Se por acaso, iniciei minha lamentação citando acontecimentos envolvendo mulheres é porque felizmente eu não posso me descolar disso: sou mulher. Estou à mercê do risco. Risco amplo que perfura o corpo e a alma. Mas quem quer saber disso? Se agora mesmo posso ouvir daqui o pagode do momento, e consequentemente lembro-me do funk carioca, e do sertanejo brasileiro. E toda a “espécie” de coisa que se diga música por aqui? O poder está na “tcheca”, ou naquele sermão religioso do vizinho, e na inimizade chamada religião. A religião foi empobrecida porque se tornou banco. Uma antítese louca, mas uma antítese. Porque discordo, também, infelizmente discordo que a religião cumpra hoje uma religação do homem com a divindade de qualquer nome. Não, não, é desestruturação mesmo, é estar no lixo. Apenas servindo aos interesses e excluir o outro. Minha religião de forma alguma é a de rede social, nem em saudações, nem em dízimos. Difícil é perceber que o inimigo é a humanidade inteira.  Para onde eu posso fugir?
   Felizmente, felizmente não tenho problemas com drogas, bebidas, ou doenças psíquicas mais graves. Meu único problema é pensar demais, enquanto ninguém nem sabe o que é pensamento. O que é lógica mesmo? Escuta-se que a seca do nordeste foi causada por pecado, e que mortos famosos morreram porque desafiaram o Deus. Esse discurso lamentavelmente acessa os mesmos caminhos que disseram /dizem  que os judeus, negros, mulheres não prestavam/am. Essa é a lógica. É uma ordem esquisita porque quaisquer casos desses anunciados estão em linguagem referencial. Elas são fatos, estão acontecendo. Estão ali no ônibus, no vizinho que diz: “ela usa torso, é macumbeira.”; “Ele é gay por isso envergonha a sociedade.”; “Ele é preto, não vale nada.”; “Ela é piriguete porque é suburbana”. Discursos assim velhos, mas bem quentinhos. Sempre saídos dos fornos de pessoas idôneas e sob o olhar de um DEUS.
   Será que todas essas mulheres não tinham uma crença? Será que elas desafiavam o Deus postado nas redes sociais? Será que eram pecadoras como a Madalena? Por isso mereciam ser mortas, violentadas, propriedades de homens? Por isso “Deus” não estava ali para elas?
   Felizmente, tenho felicidade em afirmar: esse Deus seu, não é o meu. Essa é a minha verdade. Simplesmente somos o nosso inimigo. A seca sempre existiu. E vários são os estudos que comprovam que incentivos e tecnologias abrandariam a situação.  Como, como pode ser pecado? Vasculho a minha mente procurando uma desculpa para acreditar que isso tudo que estamos vendo hoje em relação à religião é apenas uma propaganda. Querendo acreditar que quem diz está brincando mesmo. Mas, ao fim, no fim de tudo percebo eles estão certos, eles creem que estão certos. E não posso tirar deles o direito acreditar. No meu lúcido direito de crer em algo, digo afirmativamente: Seu deus não é o meu. Porque a minha noção de divindade permite-me questionar, usar as minhas capacidades intelectuais. Logo, seu Deus não é o meu. Porque não preciso anunciar e discriminar qualquer um que seja.

Naiana Freitas, 29 de abril de 2013.





[1] Deus com letra maiúscula, por hábito. 

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