quinta-feira, 30 de maio de 2013

Postagem 21: Profissões para mulheres e outros artigos feministas _Virginia Woolf

Foto: Naiana Freitas
Para encerrar o maio de 2013 em minha vida, trago algumas impressões de leitura do livro: Profissões para mulheres e outros artigos feministas de Virginia Woolf. O meu encontro com esse livro foi ao acaso, ou no caso, deve-se ao meu gosto particular de investigar. Ao acaso posso pensar, porque não imaginava encontrar as primeiras páginas do livro de Woolf no site da editora LP&M. Quando li as primeiras páginas foi amor à primeira vista. A verdade é que somente cheguei ao acaso, porque li em algum texto teórico alguma referência a uma palestra de Woolf.

Como esse amor foi tão transbordante precisei registrar esse encontro em uma postagem anterior chamada: O Próximo. Lembro que citava um trecho e ao fim declarava: “[...] Só sei que as seis páginas me convenceram a ler o livro inteiro. Espero encontrá-lo... Porque tem um tempinho que busco o “Um teto todo seu” da própria autora...”.  Quando tentei comprar pela primeira vez o “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”, ele estava em falta. Depois de uns meses, já esquecida da promessa consegui comprar. Este livro é bem baratinho, mas mesmo assim pedi pela internet junto com outras encomendas. O livro chegaria em  uma semana. Era só esperar. Nesta semana de espera, li uma entrevista com a tradutora do livro, Denise Bottmann chamada: Virginia Woolf feminista é “uma invenção da tradição”, na qual ela afirmava sobre Woolf: “[...] Seus textos ditos feministas são essencialmente textos de circunstância, artigos, palestras, resenhas curtas; seu feminismo é, digamos, de segundo grau.” (Jornal Opção, 3 de mar. 9 de mar. de 2013           disponível em: http://www.jornalopcao.com.br/posts/opcao-cultural/virginia-woolf-feminista-e-uma-invencao-da-tradicao) .  Se fossem outros tempos eu diria: “como assim, feminismo de segundo grau?”.
São outros tempos e por isso absorvi essa opinião de um modo bem produtivo. Acho válida a afirmação da tradutora, como acho válida a minha. Assim, como muitas escritoras não levantaram nenhuma bandeira feminista, Woolf também não o fez. Melhor para elas, não precisaram se associar a nenhum eixo político-social para escrever as suas ideias. O ranço com o termo feminismo é de longa dada. Se hoje quando uma escritora se diz feminista ou qualquer outra mulher civil diz consegue ganhar olhares inquisidores, imagine para escritoras de outro contexto social, época, com dramas emocionais?

A questão da lucidez diante de seu contexto social é o mais importante e não se ela se nomeou feminista ou não. Essa afirmação é um excesso que não preciso. Eu ao contrário, muitas vezes preciso dizer: “sou feminista-moderada”, só para garantir um por quê? Por que moderada? Por que feminista? , nesse mundo tão movediço eu que preciso dizer a corrente que sigo, qual não sigo, o que é para mim tudo isso e para os outros. Ela, ela não precisou, levantar nenhum pano roxo, queimar bonecas, fazer topless. Ela não precisou de nada disso para descobrir o aparentemente óbvio que ninguém via, ou fingia não ver como até hoje.

Nesta coletânea de textos, Virginia Woolf opina desde o papel das escritoras, até o das operárias. Visibilizando os obstáculos encontrados pela mulher que escreve, como por exemplo, cita o recurso de pseudônimos usados por George Eliot e Charlotte Brontë (Woolf, 2012, p.28). Como uma forma de proteção, ou melhor, de libertação. Já que,

“[...] para um homem ainda é muito mais fácil do que para uma mulher dar a conhecer suas opiniões e vê-las respeitadas. Não tenho dúvidas de que, caso tais opiniões prevaleçam no futuro, continuaremos num estado de barbárie semicivilizada. Pelo menos é assim que defino a perpetuação do domínio de um lado e, de outro, da servilidade.” (Woolf, 2012, p.51).

Aborda as limitações sociais impostas pela família ou pelos padrões sociais que regiam a sociedade daquela época. Exemplifica contando- nos que os manuscritos de Jane Austen foram queimados pela madrasta. E até mesmo ironiza a condição das escritoras declarando: “[...] Claro que foi por causa do preço baixo do papel que as mulheres deram certo como escritoras, antes de dar certo nas outras profissões.” (Woolf, 2012, p.10).

Quanto a minha opinião, creio que Virginia Woolf foi mais do que qualquer feminista. Ela atingiu um grau de lucidez tão imenso, que não conseguiu suportar esse embate entre o real e fictício, entre o socialmente imposto e o que sua subjetividade transmitia. Woolf desenvolveu uma ideia onde todos fossem beneficiados por um respeito que permitisse um estado onde a liberdade oferecida aos homens fosse proporcionada as mulheres. E isto, para mim, é política. Como podemos ver em:

Mas o que é necessário não é apenas a educação. É que as mulheres tenham liberdade de experiência, possam divergir dos homens sem receio e expressar claramente suas diferenças (pois não concordo com Falcão Afável que homens e mulheres sejam iguais); que todas as atividades mentais sejam incentivadas para que sempre exista um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem com a mesma liberdade dos homens e, como eles não precisem recear o ridículo e a condescendência.” (Woolf, 2012, p.51) 

Hoje, nós precisamos de alguma coisa material para se agarrar, mesmo que seja uma ideia. Elas não precisavam de nada. Só posso dizer que esta reunião de textos é muito didática, traz a opinião de uma escritora tão aclamada pela crítica ocidental. A verdade é que para mim, Woolf trazia uma autonomia latente que por ser tão independe não poderia jamais pensar em se alinhar com qualquer segmento fora de si. Não como excesso de egoísmo, mas sim com liberdade. Porque seguir o seu caminho de forma não esperada é também liberdade, como quem sabe seu suicido não foi à liberdade ao extremo? Mesmo escrito em 1931, continuamos “num estado de barbárie semicivilizada” quando o futuro virá de verdade?

WOOLF, Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Tradução de Denise Bottmann. Porto alegre: L&PM, 2012. 


Naiana Freitas, 30 de maio de 2013.








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