terça-feira, 30 de julho de 2013

Menina e moça/ Machado de Assis



A Ernesto Cibrão

Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

ASSIS, Machado.  Machado de Assis poesia. Rio de janeiro: Agir. 1964.p. 42-44.

Naiana Freitas, 30 de julho de 2013.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um sorriso indizível



Li em algum lugar que um autor poderia não ter escrito tal texto caso não tivesse lido determinado escritor antes. É aquela questão básica do que vem a ser influência. Não vou responder como escritora ou como aspirante a uma. Já passei da idade de aspirar ser uma! Quero pensar na questão da influência enquanto leitora. Pois, somente posso me definir assim: leitora!

 Para que vocês tenham uma ideia da ação desta atividade em minha vida, nessa semana sonhei com o Otelo. Eu estou lendo Otelo. Na semana passada, passei mal lendo umas experiências de Freud...  Porém, a situação que narrarei agora, foge um pouco do campo da imaginação. Precisamente há uns três meses atrás, eu estava chegando em casa. Avistei uma vizinha ao longe. Cumprimentei-a bem secamente.  De repente, ela se aproximou com um sorriso de canto de boca. Um sorriso que nunca tinha visto em nenhuma outra face humana. Estranhei. Aquele sorriso me estranhou ou eu a ele simultaneamente. A vizinha chegou perto, e disse: - chegou um rapaz ai e deixou um papel na caixa do correio. Perguntei: - um rapaz? De onde?  Ela respondeu: - não, não, não disse não... E continuou com aquele sorriso perturbador. Eu disse obrigada. Subi, peguei o papel na caixa dos correios... Antes de abrir a porta, desdobrei o papel e li. Instantaneamente relacionei aquele sorriso ao documento em minha mão... E percebi que tal sorriso tinha muita lógica mesmo. Percebi qual foi o material que os escritores usaram para descrever esse tal sorriso. Senti que estava dentro de um conto de Machado de Assis, cujos personagens aparecem com esse sorriso estampado na cara. Aquele prazer sádico, irônico, aquelas meias palavras que dizem tudo. Em nenhum outro lugar a não ser na literatura eu havia visto aquele gênero de riso. Revi a face da vizinha recordei do Iago, do gato de Alice no país das maravilhas, do Fortunato, do guarda dos loucos da Enfermaria número 6, do diretor do manicômio brincando com o jovem visitante...

Agora, o sorriso estava personificado nesta figura chamada vizinha de carne e osso. Devido ao imput causado pela fisionomia desta criatura encontrei em mim estes e outros personagens. Por isso um sorriso perturbador, um sorriso que nunca tinha visto em nenhum outro momento de minha vida. Somente ali naquele instante acessei o humano, o humano plano que tanto vi nos livros que li. Depois deste dia aquele sorriso fica repassando em minha cabeça, como um filme maldito.

Por meio daquele sorriso aprendi como podemos aparar o veneno, composto pela satisfação de desejar o mal a alguém e sentir prazer em fazê-lo, no prato da discórdia.  Percebi isto porque em meu repertório de leitura eu tinha visto... É verdade, se outra pessoa tivesse visto isto, iria creditar a safadeza, inveja, injúria, mau caráter, desceria as escadas e iria discutir com ela. Sei lá... Por outro lado, eu fiquei consternada, peguei aquele malfadado sorriso e transformei em um júbilo interno. Porque descobri, descobri como é esse sentimento ruim e tão humano que consiste em dar notícias ruins aos outros com um prazer indizível. Deveria ter dito: eureca!

Esse sorriso nunca se apagará de mim.  Só posso dizer que ele foi de grande importância ao meu aprendizado enquanto ser humano. E que mesmo o papel lacrado, a vizinha perscrutou quem o trouxe. Como sempre os vizinhos sabem de tudo!

Aquele sorriso se amalgamou em mim, e mesmo eu expurgando-o agora neste texto ele viverá comigo eternamente.  As notícias não eram boas, elas estavam carameladas de nefasto... E que por isto poupo contar vocês o que se sucedeu depois. Só aviso que foi doloroso e desgastante.


Naiana Freitas, 27 de julho de 2013

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Eu, leitora....

Alguém me perguntou na semana passada, por que você lê?
Eu simplesmente respondi: Porque tudo o que leio, eu vivo. 





Naiana Freitas, 24 de julho de 2013.

terça-feira, 23 de julho de 2013

O que se diz/Carlos Drummond de Andrade



Que frio! Que vento! Que calor! Que caro! Que absurdo! Que bacana! Que tristeza! Que tarde! Que amor! Que besteira! Que esperança! Que modos! Que noite! Que graça! Que horror! Que doçura! Que novidade! Que susto! Que pão! Que vexame! Que mentira! Que confusão! Que vida! Que talento! Que alívio! Que nada!
Assim, em plena floresta de exclamações, vai se tocando pra frente. Ou para o lado. Ou para trás. Ou não se toca. Parado. Encostado. Sentado. Deitado. De cócoras. Olhando. Sofrendo. Amando. Calculando. Dormindo. Roncando. Pesadelando. Fungando. Bocejando. Perregando. Adiando. Morrendo.




Naiana Freitas, 23 de julho de 2013.




O AUTO-RETRATO/ Mario Quintana



No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco!



Naiana Freitas, 23 de julho de 2013.

RITMO/Mario Quintana



Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes

No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa

até que enfim
se desenrola
toda a corda
e o mundo gira imóvel como um pião!



Naiana Freitas, 23 de julho de 2013. 



segunda-feira, 22 de julho de 2013

vinda...

Mais um cara inútil aterrizou nessa terra de loucos. 
Eu jurei que não iria me indispor, mas, mas não tem como ficar disposta com essa vinda...



Naiana Freitas, 22 de julho de 2013.

domingo, 21 de julho de 2013

Viva ao turismo religioso!

Interessante, tivemos mais visitantes estrangeiros para ver o Papa...que para ver a copa. Realmente o Papa é pop....Viva ao turismo religioso!



Naiana Freitas, 21 de julho de 2013. 

sábado, 20 de julho de 2013

Selos: Feliz dia do amigo(a)!



Todas estas flores passaram por mim em algum momento de minha vida, algumas continuam vivas no jardinzinho daqui de casa, outras morreram, outras agora estão esperando brotar novas flores. Como a amizade, algumas são fortes e bonitas, outras só são belas e bem frágeis, outras são cíclicas vão e voltam todo o tempo, umas nem precisam de flores para dizer que estão ali, são o que são: pedaço de caule, raiz, folha...Elas não precisam de nem mesmo um dia como esse. Aposto,em breve, será um dia mais mercadológico! A verdade é que gosto de colecionar fotografias de flores como gosto de ter amigos. 

Então da minha coleção de fotos de flores: Feliz dia do amigo!

foto: Naiana Freitas

foto: Naiana Freitas

foto: Naiana Freitas





Naiana Freitas,20 de Julho de 2013.





Citação Harold Bloom

A informação está cada vez mais ao nosso alcance. Mas a sabedoria, que é o tipo mais precioso de conhecimento, essa só pode ser encontrada nos grandes autores da literatura. Esse é o primeiro motivo por que devemos ler. O segundo motivo é que todo bom pensamento, como já diziam os filósofos e os psicólogos, depende da memória. Não é possível pensar sem lembrar – e são os livros que ainda preservam a maior parte de nossa herança cultural. Finalmente, e este motivo está relacionado ao anterior, eu diria que uma democracia depende de pessoas capazes de pensar por si próprias. E ninguém faz isso sem ler.



Harold Bloom em entrevista a Revista Veja (edição 1685), 31 de janeiro de 2011.



Naiana Freitas, 20 de julho de 2013. 

sábado, 13 de julho de 2013

Esparsa ao desconcerto do mundo/ Luís de Camões



Os bons vi sempre passar 
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado:
Assim que, só para mim
Anda o mundo concertado




Disponível em:
http://www.vinhoepoesia.com.br/default.asp?CodMenu=12&CodSubmenu=147

Naiana Freitas, 13 de julho de 2013.



É ela! É ela! É ela! É ela!/Álvares de Azevedo



É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma, 
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!


Naiana Freitas, 13 de julho de 2013.



terça-feira, 9 de julho de 2013

Mais uma bonequinha....

Mais uma bonequinha....fofa! 
Presente de quem me conhece desde quando eu tinha 3 anos de idade!!! 

Foto: Naiana Freitas
Ela sabia, que era minha cara!!! SABIA!!!                          



Naiana Freitas, 09 de julho de 2013.

Citação Eça de Queirós (Conto José Matias)

"[...]Já, porém, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrivelmente."

Eça de Queirós  (em   José Matias)



Naiana Freitas, 09 de julho de 2013.
    

domingo, 7 de julho de 2013

Domingo é meia...

Domingo é meia em Salvador, e a paciência inteira!   Por quê? É necessário coragem para sair de casa, enfrentar o ônibus lotado e esperar, esperar, e esperar que eles apareçam.



Naiana Freitas, 07 de julho de 2013. 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Não perdi, ganhei.



Pela primeira vez na vida perdi alguma coisa que me trouxe não a dor da perda, mas algo bem próximo à libertação. Fui desamarrada de um sistema que nunca acreditei lógico, de uma relação de poder que nunca internalizei. Livre estou para fazer algo mais urgente. Na verdade, eu não perdi, eu ganhei. E essa letra, me caiu como uma luva:

“[..]Se não faz sentido, discorde comigo
Não é nada demais, são águas passadas
Escolha uma estrada
E não olhe, não olhe prá trás”
(Capital Inicial)




Naiana Freitas, 04 de julho de 2013.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Inspiração_ Citação Machado de Assis


“[...] Ideou então o canto esponsalício, e quis compô-lo; mas a inspiração não pôde sair. Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada.”

ASSIS, Machado. Cantiga de Esponsais. In: __________. Os melhores contos de Machado de Assis. 12ed. São Paulo: Global. 1997.



Naiana Freitas, 02 de julho de 2013

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Da janela da minha casa_Cito a Cantiga de Esponsais de Machado de Assis




Foto: Naiana Freitas (Da janela da minha casa)




“[...] Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens.”


ASSIS, Machado. Cantiga de Esponsais. In: __________. Os melhores contos de Machado de Assis. 12ed. São Paulo: Global. 1997. p.222.



Naiana Freitas, 01 de julho de 2013.