segunda-feira, 29 de julho de 2013

Um sorriso indizível



Li em algum lugar que um autor poderia não ter escrito tal texto caso não tivesse lido determinado escritor antes. É aquela questão básica do que vem a ser influência. Não vou responder como escritora ou como aspirante a uma. Já passei da idade de aspirar ser uma! Quero pensar na questão da influência enquanto leitora. Pois, somente posso me definir assim: leitora!

 Para que vocês tenham uma ideia da ação desta atividade em minha vida, nessa semana sonhei com o Otelo. Eu estou lendo Otelo. Na semana passada, passei mal lendo umas experiências de Freud...  Porém, a situação que narrarei agora, foge um pouco do campo da imaginação. Precisamente há uns três meses atrás, eu estava chegando em casa. Avistei uma vizinha ao longe. Cumprimentei-a bem secamente.  De repente, ela se aproximou com um sorriso de canto de boca. Um sorriso que nunca tinha visto em nenhuma outra face humana. Estranhei. Aquele sorriso me estranhou ou eu a ele simultaneamente. A vizinha chegou perto, e disse: - chegou um rapaz ai e deixou um papel na caixa do correio. Perguntei: - um rapaz? De onde?  Ela respondeu: - não, não, não disse não... E continuou com aquele sorriso perturbador. Eu disse obrigada. Subi, peguei o papel na caixa dos correios... Antes de abrir a porta, desdobrei o papel e li. Instantaneamente relacionei aquele sorriso ao documento em minha mão... E percebi que tal sorriso tinha muita lógica mesmo. Percebi qual foi o material que os escritores usaram para descrever esse tal sorriso. Senti que estava dentro de um conto de Machado de Assis, cujos personagens aparecem com esse sorriso estampado na cara. Aquele prazer sádico, irônico, aquelas meias palavras que dizem tudo. Em nenhum outro lugar a não ser na literatura eu havia visto aquele gênero de riso. Revi a face da vizinha recordei do Iago, do gato de Alice no país das maravilhas, do Fortunato, do guarda dos loucos da Enfermaria número 6, do diretor do manicômio brincando com o jovem visitante...

Agora, o sorriso estava personificado nesta figura chamada vizinha de carne e osso. Devido ao imput causado pela fisionomia desta criatura encontrei em mim estes e outros personagens. Por isso um sorriso perturbador, um sorriso que nunca tinha visto em nenhum outro momento de minha vida. Somente ali naquele instante acessei o humano, o humano plano que tanto vi nos livros que li. Depois deste dia aquele sorriso fica repassando em minha cabeça, como um filme maldito.

Por meio daquele sorriso aprendi como podemos aparar o veneno, composto pela satisfação de desejar o mal a alguém e sentir prazer em fazê-lo, no prato da discórdia.  Percebi isto porque em meu repertório de leitura eu tinha visto... É verdade, se outra pessoa tivesse visto isto, iria creditar a safadeza, inveja, injúria, mau caráter, desceria as escadas e iria discutir com ela. Sei lá... Por outro lado, eu fiquei consternada, peguei aquele malfadado sorriso e transformei em um júbilo interno. Porque descobri, descobri como é esse sentimento ruim e tão humano que consiste em dar notícias ruins aos outros com um prazer indizível. Deveria ter dito: eureca!

Esse sorriso nunca se apagará de mim.  Só posso dizer que ele foi de grande importância ao meu aprendizado enquanto ser humano. E que mesmo o papel lacrado, a vizinha perscrutou quem o trouxe. Como sempre os vizinhos sabem de tudo!

Aquele sorriso se amalgamou em mim, e mesmo eu expurgando-o agora neste texto ele viverá comigo eternamente.  As notícias não eram boas, elas estavam carameladas de nefasto... E que por isto poupo contar vocês o que se sucedeu depois. Só aviso que foi doloroso e desgastante.


Naiana Freitas, 27 de julho de 2013

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