segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Trecho: Declaração de amor Clarice Lispector

“[...] Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. [...] Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. [...]Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.”


LISPECTOR, Clarice. Declaração de amor. In: Idem. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 100. 


Naiana Freitas, 27 de janeiro de 2014. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Rosa vermelha...




Naiana Freitas, 25 de janeiro de 2014. 

Gayana/Caetano Veloso

O amor que vive em mim
Vou agora revelar
Este amor que não tem fim
Já não posso em mim guardar

Eu amo muito você
Eu amo muito você
Eu não vou mais me calar
Eu não vou mais esconder
Este segredo guardado
Bem lá no fundo do peito

Eu amo muito você
Eu amo muito você
Não adianta fugir
Não adianta fingir
Já me cansei de sofrer
Por não poder lhe dizer

Eu amo muito você
Eu amo muito você
Nem me interessa saber
Se alguém vai condenar
O meu amor é maior
Do que a terra e o mar
Maior que o céu e as estrelas
Maior que tudo que há

E se um dia eu me for
Para onde deus me levar
Mesmo assim, meu amor
Com você vai ficar
Naiana Freitas, 25 de janeiro de 2014.



Disponível em: http://letras.mus.br/caetano-veloso/gayana/.  Acessado em:  25.jan.2014

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

tem razão, mãe/José Amarante


Ela dizia saber futuro. Como se coisa que vem depois permitisse vir antes. Tempo é para todo mundo. O mesmo. Impiedoso. Não tinha jeito, toda vez que viajava, razão ou outra, adivinhava. Era sorte de idoso, morte. Era desastre de moça, bucho. Era travessura de menino, cacos valiosos. Menino não acreditava, “mãe não pode adivinhar tudo assim”.
Uma vez foi Dona Zezé, empregada de muito tempo da casa, agora isolada num casebre na rua de trás, velha ficou, morreu. Viagem de mãe era pra visitar Flor, filha adotada, nunca mais vista, acidentada em cidade longe. Nem soube do fato, distante que estava. Tardou um tempo, meninada da casa anuncia: “mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Mãe trouxe cocada da mãe verdadeira de Flor, cocada vendida na rua. Gosto ardido de coco já passado. Contar novidade fazia parte: “Mãe, Dona Zezé morreu”. E ela, como sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Dona Zezé morta, parecia que tava adivinhando”. Menino se irritava: “Se adivinhava, por que não contou antes?” Menino queria que mãe desafiasse, então, o tempo. Mas nada dizia. Desconfiado. Só isso.
Outra vez, visitar Pai, longe, doente: “Seu Pai precisa de mim, aposentado por invalidez”. A cidade grande ficava mesmo longe, ausências com essa razão eram demoradas. Menino nesses tempos fazia a comida para a casa. Tempo bom. Só a meninada da casa e Pai Véi e Mãe Véa. Permitido até fazer cozinhado no quintal, sem Pai e Mãe. Feijão quase cru, na panela de barro. Tardava, o anúncio de novo: “Mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Lembrança do Pai, história pra contar, existia amor. Mas contar novidade fazia parte: “Mãe, lembra de Nega de Dona Coló? Pegou bucho de Naldinho”. Ela, sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Nega barriguda, parecia que tava adivinhando”. A irritação tomava o menino: “Mãe quer adivinhar desse jeito, coisa sem graça, se adivinhava, por que não contou antes?” Indagação eterna na cabeça do menino. Mas Mãe não pode mentir.
Menino impacientou-se. Não haveria outra vez. Desmascarar a Mãe. Isso seria bom. Por que Mãe não pode estar errada? Ideia perversa toma conta de menino. Era esperar. Viagem nova chega.
Tardou o motivo, menino quase esqueceu. Mas estava a Mãe viajando outra vez, talvez para visitar o Pai. Viagem curta, pouco tempo dessa vez. Era fim de tarde, Menino brincava com o mico, o terceiro. Primeiro morreu engolido por um gato da vizinha, briga eterna nas famílias, andar na rua, nem passar na calçada uma da outra, porque o gato comeu o mico. Segundo afogou-se na caixa d’água da casa, água pra tudo. Mas estava o menino brincando com o mico, o terceiro, deitado na cama, anúncio como de costume: “Mãe chegou”. Menino não tardou a pensar ideia perversa. Testar a Mãe. Medo era grande, chegava palpitar coração. Menino sentia entrar em terreno novo, desconhecido. Queria entrar. Não ia recuar. O plano: “Mãe vai chegar. Vou dizer a ela que o mico morreu.” Menino aceitou mentir, uma mentira bem contada, necessária, prova definitiva. Era esperar Mãe dizer “parecia que tava adivinhando”.
Fato foi que Mãe chegou e trouxe alegria para a casa. Meninada fuçando tudo. O menino deixa o quarto, deixa o mico lá, brincando, cara miúda, sorridente sem motivo. Já na sala vê a mãe. Sem abraço, dessa vez. “Mãe, notícia triste, o mico morreu”. Não falhou: “Oh, Toinho, fala isso não, pois no ônibus, fechava o olho, via o mico morto na tua mão”. Menino murcha. Acreditava, no fundo, que Mãe era verdadeira. Mas a prova, negar não, não podia. “Oh, Mãe, vida inteira sempre mentira, pois vem cá no quarto pra senhora ver”. Menino traz Mãe pelo braço. Pega o mico ainda quentinho: “Olha aqui, Mãe, a prova, nega não”. Termina de falar olha pro mico, na mão, morto.
José Amarante


domingo, 12 de janeiro de 2014

Trecho de " A descoberta do mundo"

"[...]Recuso-me a ler o texto do mundo, as manchetes já me deixam em cólera. E comemora-se muito. E guerreia-se o tempo todo. Todo um mundo de semiparalíticos. E espera-se inutilmente o milagre."

LISPECTOR, Clarice. Dies Irae. In: Idem.A desco berta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 37-38.



Naiana Freitas, 12 de Janeiro de 2014.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sobre Vírgulas...

Sinceramente, sou uma pessoa carente de vírgulas. Não tenho fome de vírgulas. Prefiro ponto a vírgula. Preciso estudar vírgulas.Subjetivas vocês são...E, nossas subjetividades andam em desacordo.


Naiana Freitas, 07 de janeiro de 2013.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Tentação/Clarice lispector


Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
  Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pelos de ambos eram curtos, vermelhos.
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
   Mas ambos eram comprometidos.
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás
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Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

Disponível em: http://www.tirodeletra.com.br/conto_canino/Tentacao-ClariceLispector.htm. Acessado em:06 de jan. 2014.

Naiana Freitas, 06 de janeiro de 2013.