terça-feira, 21 de janeiro de 2014

tem razão, mãe/José Amarante


Ela dizia saber futuro. Como se coisa que vem depois permitisse vir antes. Tempo é para todo mundo. O mesmo. Impiedoso. Não tinha jeito, toda vez que viajava, razão ou outra, adivinhava. Era sorte de idoso, morte. Era desastre de moça, bucho. Era travessura de menino, cacos valiosos. Menino não acreditava, “mãe não pode adivinhar tudo assim”.
Uma vez foi Dona Zezé, empregada de muito tempo da casa, agora isolada num casebre na rua de trás, velha ficou, morreu. Viagem de mãe era pra visitar Flor, filha adotada, nunca mais vista, acidentada em cidade longe. Nem soube do fato, distante que estava. Tardou um tempo, meninada da casa anuncia: “mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Mãe trouxe cocada da mãe verdadeira de Flor, cocada vendida na rua. Gosto ardido de coco já passado. Contar novidade fazia parte: “Mãe, Dona Zezé morreu”. E ela, como sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Dona Zezé morta, parecia que tava adivinhando”. Menino se irritava: “Se adivinhava, por que não contou antes?” Menino queria que mãe desafiasse, então, o tempo. Mas nada dizia. Desconfiado. Só isso.
Outra vez, visitar Pai, longe, doente: “Seu Pai precisa de mim, aposentado por invalidez”. A cidade grande ficava mesmo longe, ausências com essa razão eram demoradas. Menino nesses tempos fazia a comida para a casa. Tempo bom. Só a meninada da casa e Pai Véi e Mãe Véa. Permitido até fazer cozinhado no quintal, sem Pai e Mãe. Feijão quase cru, na panela de barro. Tardava, o anúncio de novo: “Mãe chegou”. Correria, alegria na casa. Lembrança do Pai, história pra contar, existia amor. Mas contar novidade fazia parte: “Mãe, lembra de Nega de Dona Coló? Pegou bucho de Naldinho”. Ela, sempre: “Oh, Toinho, pois eu no ônibus fechava o olho e via Nega barriguda, parecia que tava adivinhando”. A irritação tomava o menino: “Mãe quer adivinhar desse jeito, coisa sem graça, se adivinhava, por que não contou antes?” Indagação eterna na cabeça do menino. Mas Mãe não pode mentir.
Menino impacientou-se. Não haveria outra vez. Desmascarar a Mãe. Isso seria bom. Por que Mãe não pode estar errada? Ideia perversa toma conta de menino. Era esperar. Viagem nova chega.
Tardou o motivo, menino quase esqueceu. Mas estava a Mãe viajando outra vez, talvez para visitar o Pai. Viagem curta, pouco tempo dessa vez. Era fim de tarde, Menino brincava com o mico, o terceiro. Primeiro morreu engolido por um gato da vizinha, briga eterna nas famílias, andar na rua, nem passar na calçada uma da outra, porque o gato comeu o mico. Segundo afogou-se na caixa d’água da casa, água pra tudo. Mas estava o menino brincando com o mico, o terceiro, deitado na cama, anúncio como de costume: “Mãe chegou”. Menino não tardou a pensar ideia perversa. Testar a Mãe. Medo era grande, chegava palpitar coração. Menino sentia entrar em terreno novo, desconhecido. Queria entrar. Não ia recuar. O plano: “Mãe vai chegar. Vou dizer a ela que o mico morreu.” Menino aceitou mentir, uma mentira bem contada, necessária, prova definitiva. Era esperar Mãe dizer “parecia que tava adivinhando”.
Fato foi que Mãe chegou e trouxe alegria para a casa. Meninada fuçando tudo. O menino deixa o quarto, deixa o mico lá, brincando, cara miúda, sorridente sem motivo. Já na sala vê a mãe. Sem abraço, dessa vez. “Mãe, notícia triste, o mico morreu”. Não falhou: “Oh, Toinho, fala isso não, pois no ônibus, fechava o olho, via o mico morto na tua mão”. Menino murcha. Acreditava, no fundo, que Mãe era verdadeira. Mas a prova, negar não, não podia. “Oh, Mãe, vida inteira sempre mentira, pois vem cá no quarto pra senhora ver”. Menino traz Mãe pelo braço. Pega o mico ainda quentinho: “Olha aqui, Mãe, a prova, nega não”. Termina de falar olha pro mico, na mão, morto.
José Amarante


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