sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Inutilidades /José Paulo Paes



Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém a xícara não voa.

De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.

Disponível em:http://sentiminto.blogspot.com.br/2008/05/inutilidades-jos-paulo-paes.html. Acesso em:25. fev.2014.

Naiana Freitas, 28  de fevereiro de 2014. 

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Selo: Carnaval


Para quem quer folia, folia!
Para quem quer descanso, descanso!




Naiana Freitas, 27 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Vandalismo/Augusto dos Anjos

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!


Disponível em : http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=511#ixzz2LgAI4j7H. Acesso dia 24. fev. 2014. 



Naiana Freitas, 24 de fevereiro de 2014.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Tem coisas que se pagam com a ignorância...


Hoje, fui pagar uma conta. O local estava vazio, estranhei. Logo, descobri que nenhuma conta estava sendo paga. Perguntei ao caixa o porquê. Ele respondeu-me sem tirar os olhos da tela do celular: “Cara senhora, todos os aparelhos estão queimados, estamos aguardando um técnico.” Se a minha cara fosse um emotion, seria aquele com fumaça saindo pelas narinas... Então, retruquei para o senhor do balcão: “Caro senhor, da próxima vez invente uma resposta mais satisfatória para a minha burrice”... Mas, após respondê-lo tive absoluta certeza: existem coisas nas quais devemos fingir ignorância extrema... Pois, assim experimentamos algo próximo daquilo que se chama felicidade.


Naiana Freitas, 14 de fevereiro de 2014.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Trecho de Entrevista-relâmpago /Clarice Lispector

“[...] Sou uma tímida ousada e é assim que tenho vivido, o que, se me traz dissabores, tem-me trazido também alguma recompensa. Quem sofre de timidez ousada entenderá o que quero dizer.”



LISPECTOR, Clarice. Entrevista-relâmpago com Pablo. In: ________. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p.184





Naiana Freitas, 22 de fevereiro de 2014

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Trecho: Fartura e carência/ Clarice Lispector

“[...] A raiva me tem salvo a vida. Sem ela o que seria de mim? Como suportaria eu a manchete que saiu um dia no jornal dizendo que cem crianças morrem no Brasil diariamente de fome? A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente? Ser gente me cansa.[...] Há dias que vivo de raiva de viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta."



LISPECTOR, Clarice. Fartura e carência. In: Idem. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999. p. 135.





Naiana Freitas, 18 de fevereiro  de 2014. 


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Trecho de Clarice Lispector

"[...] Tenho sempre que me lembrar que tudo que consegui na vida foi à custa de ousadias,embora pequenas."

Clarice Lispector 

In: LISPECTOR, Clarice. Minhas queridas. Rio de Janeiro: Rocco,2007.p.206




Naiana Freitas, 15 de fevereiro de 2014. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Brasil...

O Brasil deveria parar de cavar buracos metafóricos e começar a escavar um fosso-túmulo bem fundo para se enterrar de verdade....


Naiana Freitas, 12 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Para diminuir este estado de descrença

Para quem esperou tanto, sofreu tanto, chorou tanto, leu tanto... Só quero ver meu nome na lista definitiva para diminuir este estado de descrença. Como disse Arthur Schnitzler: "Estar de prontidão é bom, ter paciência é melhor, porém saber esperar pelo momento certo é tudo". Discordo dele sobre o momento, quem saberá o momento certo para alguma coisa nesta vida? Mas, concordo com ele em esperar... Este verbo está quase em desuso. Em geral, as pessoas desconhecem seu significado. A vida em série, a vida na prateleira de uma loja, a vida correndo rápido em flashes no Facebook. Esperar ninguém quer... Querem é bolo quente saído do forno, mesmo que dê dor de barriga. Eu não gosto de bolo quente... Aprendi a esperar, e na espera amadurecer meu pensamento.  Aprendi a ver o barulho do mundo e me manter em mim... E principalmente estar lúcida e louca. Desperta e sonolenta para o mundo... E ser sempre sonho, apesar da realidade que me circunda... Realidade violenta, cidade violenta, mundo violento, logo, periferia muito violenta. Distante do centro, marginalizada, estereotipada, de gente incivilizada... A periferia não sabe que estou em curso... Nem meus vizinhos, nem a polícia que matou um cara meses atrás aqui perto. Eles não sabem disso, e eu não estou nem ai. Porque seria fácil dizer: sou “favela” agora! E que a periferia me ajudou. Nadinha. Estou em curso de chegar, porque sempre acreditei no estudo, porque meus pais, irmãos e avô sempre acreditaram em mim... Minha família é o meu primeiro escudo contra o mundo, o meu segundo escudo é a literatura. Quero correr a um livro, para sentir o seu barulho e ele me dizer: você passou de verdade... Será mestranda em literatura!

Naiana Freitas, 07 de fevereiro de 2014.



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Citação de Arthur Schnitzler....

"Estar de prontidão é bom, ter paciência é melhor, porém saber esperar pelo momento certo é tudo"


Arthur Schnitzler


Naiana Freitas, 06 fevereiro de 2013.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

A Última Crônica/Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.                                   
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
 Ao fundo do botequim um casal de negros acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começam a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa.
A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura, ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo.
O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.                                 

(Texto extraído do livro "A Companheira de Viagem", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1965, pág. 174)

Naiana Freitas,04 de fevereiro de 2014.