quarta-feira, 2 de julho de 2014

Todas as cartas de amor são/ Álvaro de Campos

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas).
21-10-1935


Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993).  - 84.

Disponível em : http://arquivopessoa.net/textos/2492. acessado em 02 Jun.2014.

Naiana Freitas, 02 de julho de 2014.

Um comentário:

  1. Amo esse poema! Perfeito como a natureza humana, cheia de tropeços. Nos coloca no lugar da simplicidade, de auto-exposição e entrega, que o amor exige. É lindo!

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Obrigada!!!