domingo, 7 de junho de 2015

Entre cartas e impressões: uma leitura do amor nas Cartas a Ophélia de Fernando pessoa.


Como adverte a orelha da capa do livro: Cartas a Ophélia: Fernando pessoa, da Biblioteca Azul, a tarefa de leitura de cartas alheias não é algo inocente, é uma atividade que demanda certo perigo, que o leitor tem que estar disposto a correr.  Estas cartas nos aproximam de um labirinto em que múltiplas personalidades, de Fernando Pessoa, se misturam confluindo em um sujeito incógnito. Às vezes penso, que esse homem/escritor/ator nem mesmo existiu de verdade.
As Cartas a Ophélia: Fernando pessoa são uma espécie de entrada de “fininho” na vida desse genial poeta, lacônico em suas emoções, mas em alguma medida desarmado diante as aventuras do coração. Dispostas em um trabalho gráfico tão genial quanto o escritor, com ilustrações de Antonio Seguí, temos acesso a um Pessoa que foge da sobriedade em seus poemas. Ele é um cético, desconfiado e doce homem declarando-se a amada.
Esse ceticismo de certa forma o impossibilitou de consumar um romance que a olhos vistos significava alguma coisa para ambos os envolvidos. Mas, esse sentimento de entrega por parte do escritor nunca foi total, em várias passagens é notável um ceticismo pessoal a uma empreitada amorosa. Como podemos ver em:
O outro dia, quando falei contigo a propósito de eu estar doente, pareceu-me (e creio que com razão) que o assunto te aborrecia, que pouco te importavas com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de saúde, pouco te rales com isso. Eu compreendo bem que, estando tu de saúde, pouco rales com que os outros sofrem, mesmo quando esses “outros” são, por exemplo, eu, a quem tu dizes amar. Compreendo que uma pessoa doente é maçadora, e que é difícil ter carinhos por ela. Mas eu pedia-te apenas que fingisses esses carinhos, que simulasses algum interesse por mim. Isso ao menos, não me magoaria tanto como a mistura do teu interesse por mim e da tua indiferença pelo meu bem estar. (PESSOA, 2013, p.34)
Logo, esse seu fingisse e simulasses se interliga a própria constituição do escritor e da sua obra, revelando-nos que , assim como ele, estamos em constante tensão com a ficção e realidade diante de seus heterônimos. Somos compelidos a acreditar e a desacreditar no seu sentimento durante todo o tempo de leitura das cartas. O mais engraçado ainda é notar a presença de Álvaro de Campos em meio à intimidade do casal, que se tocou fisicamente em breves momentos. Na página 107, temos uma carta de Álvaro de Campos endereçada a Ophélia a pedido de pessoa. Ele está impossibilitado de escrever devido “ao estado mental” que o impede de se comunicar até mesmo com uma ervilha seca, e por isso, pede que seu amigo escreva a carta a sua amada.
Outros trechos confirmam o ceticismo ao amor, e a desconfiança diante dos outros, em particular ao rapaz, Osório, que entregava as cartas escritas por ele a Ophélia. Diversas vezes ele diz, não escrevi mais porque o Osório estava perto. Na bodega, quando as pessoas estavam perto do local onde ele estava escrevendo, ele agia da mesma forma. Até mesmo a ação de telefonar dependia de uma situação em que não houvesse público. Esta busca pelo secreto o movia tornando mais instigante a declaração de seu amor por Ophelinha. Não sei do que ele tinha medo...
O Fernando Pessoa amoroso é algo tão encantador e divertido, ri bastante da situação de amante do Fernando.  Ele constantemente chama sua amada de Bebê, bebezinho, amorzinho, bebê-anjinho, pequena, pequenina etc... Chamados próprios da paixão que os envolvia. Suas assinaturas tão íntimas, como Fernando, nininho, sempre muito teu, com beijocas, beijinhos e suas variações jinhos , beijerinzinhos etc. Levam-nos a projetar um poeta diferente de toda a atmosfera em seus poemas. Aproximando-nos talvez, da maior confissão realizada por ele através de Álvaro de Campos, “[...] todas as cartas de amor são ridículas, também escrevi cartas de amor ridículas”.
E se amar é ocupar essa posição de ridículo, ele o fez com maestria.  Na carta 24, página 72, ele escreve uma carta como uma criança pequena para o  bebezinho dele. No cabeçalho lemos: “bebezinho do Nininho-ninho”, e a seguir  um jeito infantil de pronunciar as palavras:“[...] Oh! Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei da catinha dela. Oh!” (PESSOA, 2013, p.72).Podemos, ainda observá-lo  com maior comedimento, como em 26 e março de  1920, que escreveu:
[...] Adeus, amor: pensa ás vezes em mim, quando não estiveres distraída... estou convencido (por minha parte) que gosto de ti. Sim, creio poder afirmar que tenho para contigo uma certa afeição. Um regimento de beijinhos, do teu sempre e muito teu
Fernando
 (PESSOA, 2013, p.45).
Nestas cartas, podemos nos aproximar de um Fernando pessoa inquietante, provocador, apaixonante, medroso em assumir seu imenso amor, talvez, alguns digam, que o adjetivo medroso não convenha, entretanto, é só nisso que penso após a minha leitura. Talvez, não um medo por si só, mas a presença constante de uma racionalidade devastadora, que o guiava.  Sua vida era regida com um excesso de método, com a finalidade de atingir seu apogeu literário. Um homem obcecado pelo tempo, pelas horas, pela precisão. E, talvez, como ele poderia desorganizar esse seu estado mental por algo tão imprevisível e arriscado que é o amor? Como se deixar perder nas dobras de um sentimento violento e abrasador como esse? Como ele poderia deixar sua vida solitária para um convívio íntimo com outro que não era ele? Não sei responder, pois nem mesmo O Pessoa munido de outros não alcançou a resposta diante desse inefável, louco e anímico sentimento. Então, o que me resta, ou o que nos resta é ler... E se contagiar, nada de resoluções. Resoluções! Isso só serve para a matemática!
Boa leitura!


PESSOA, Fernando. Cartas a Ophélia: Fernando pessoa. São Paulo: Globo, 2013.

Naiana Freitas, 10 de outubro de 2014.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Meu quase dia de “estrela”...

Certa vez, Virginia Woolf afirmou que a ficção abriga mais verdade do que o fato.  Concordo com ela, e talvez, por concordar, tentarei esboçar um fato-ficção ocorrido comigo nestes dias. 
O episódio é muito modesto, as suas consequências que se matizaram em ficção.  E, agora nem sei em que ordem... Acho agora engraçado, mas na hora não foi não.

  O fato seco é este: cai na rua, no meio da pista, senti o asfalto bafejar no meu rosto. Não levantei de imediato... Passei um, dois, três, quatro segundos no chão. Estes segundos foram doloridos, assustadores e garantiram hematomas e escoriações  pelo corpo...etc..  Essa primeira parte é bem trivial e roxa... [risos] A segunda parte é mais colorida e luxuosa: Eu estava muito alegre, alegríssima, voltando para casa. A cada passada eu sabia que estava mais perto de casa, atravessei a primeira pista, atravessei a segunda pista, e lembro-me de ter olhado para o outro lado da rua: “_agora estou perto, pensei!” Só que no meio do caminho tinha uma pista e... ao descer do passeio pisei em um bueiro e pronto: Cara no chão! Cai com uma tonelada, meu celular chegou do outro lado primeiro... E, não sei como levantei, não sei como não sentei e chorei. Alguém me ajudou a levantar e a continuar a travessia, lembro-me dos carros se aproximando... E depois daquele momento nada suave, em meio a uma confusão mental... Foi em Macabéa e no meu quase dia de estrela atropelada que pensei. Naquele momento, por comparação, senti a alegria desta personagem ao sair da cartomante “grávida de futuro”. Eu estava muito alegre, alegre, alegríssima. Grávida de um dia: um dia que poderia ler e ler e ler e ficar em casa... Por sorte, não encontrei um Mercedes amarelo... E atropelada não fui. Talvez, atropelada fui, pela realidade angustiante da quarta-feira. Creio, que diante de tanto susto e dor a ficção foi à verdadeira SAMU daquele dia. Ainda bem..

Naiana Freitas, 05 de junho de 2015.