domingo, 30 de julho de 2017

Anne Frank, seu diário e Eu.

De repente você começa a ler um livro cujo enredo já foi exaustivamente explorado por todos os ângulos, mas à medida que a leitura avança você vai perdendo a resistência, o preconceito e se deixa surpreender. Este caso ocorreu com o gasto e o desgastado enredo do Diário de Anne Frank (2013). Há algum tempo comprei o livro e o deixei morando na minha estante por um longo tempo... Eis que um dia, o puxei de lá e comecei a ler... Assim, sem pretensão alguma.  De Súbito, a garota Anne Frank que iniciou aos 13 anos a trajetória do seu diário agiganta-se com a sua escrita madura, para uma garota tão jovem, o seu senso crítico, a sua lucidez literária com metáforas bem elaboradas para a faixa etária, o bom humor diante a adversidade, os  anseios  futuros de uma adolescente, o desejo de não ter apenas filhos e marido para se preocupar na vida, o detalhamento da situação de guerra, a descrição do confinamento das oito pessoas no anexo, sua tendência em contemplar a natureza  e principalmente a sua capacidade consciente e intensa de leitora.
Ela inicia os relatos afirmando que “o papel tem mais paciência do que as pessoas.” (FRANK, 2013, p.19) e tal afirmativa já justifica o porquê de escrever um diário. Quem já escreveu ou escreve em diários sabe bem o que tal sentença significa. Logo, fui levada a criar um pacto secreto com a menina, já que me identifiquei e a Naiana da adolescência foi cutucada lá nas gavetas da minha memória. Então, exclamei:- ehhh, sempre pensei nisso!. Por isso escrevi durante tanto tempo em diários, papéis avulsos, agendas... Depois, descobri que a Anne Frank era uma geminiana que se define dividida em duas: Uma leviana e alegre e outra profunda e quieta. Enquanto a primeira estava sempre à tona, distraindo e infernizando os demais a segunda vivia soturna, sufocada pela vida superficial da primeira, emocionalmente mais frágil, por isso só de relance chegava ao conhecimento de todos. Como nos diz:
Como já disse muitas vezes, sou partida em duas: um lado contém minha exuberância, minha petulância, minha alegria da vida, e, acima de tudo, minha capacidade de apreciar o lado mais leve das coisas [...] Meu lado mais leve, mais superficial, vai sempre tirar vantagem do meu lado mais profundo, e com isso vencerá sempre. (FRANK, 2013,368).
Esta reflexão aos 15 anos de idade me fez lembrar o meu outro autor preferido geminiano, Fernando Pessoa, que soube fazer da sua loucura um alimento literário... E, tal associação me fez refletir sobre a minha personalidade de geminiana, mesmo que eu tenha optado em dar vazão a meu lado quieto e profundo e talvez deixando meu lado leviano e alegre aparecer no meu eu professora-fotógrafa. (RSRSRS). Ainda sobre a sua personalidade, ela  admite que ser honesta consigo mesmo é o que lhe faz se sentir melhor. Logo, ela se sente à vontade para escrever comentários para as pessoas do anexo, como este: “Gente estúpida geralmente não pode suportar quando os outros fazem alguma coisa melhor do que ela.” (Frank, 2013, 348). Sentença perfeita e contemporânea!
Para não alongar ainda mais este texto, cuja a primeira intenção era escrever sobre a Anne Frank leitora e acabou se tornando um texto sobre mim, vou finalizar sinalizando as duas características que ainda me fazem falar sobre mim: a leitora e a amante da natureza.  No aniversário que ganhou o diário, recebeu de presente dois livros: Dutch Sagas and Legends,  o volume II(e  ela trocou pelo volume I),e Daisy Goes to the mountain. A partir daí o que se vê é uma leitora compulsiva por livros, amante da história que é impedida pelos pais de realizar a leitura de alguns títulos considerados proibidos para a sua faixa etária. E, mesmo confinada no anexo, realizava as suas leituras diárias, escutava a leitura do pai de Goethe e Shiller, e mantinha sua leitura sempre atualizada devido à possibilidade de poder ler livros da biblioteca trazidos pelos seus protetores. O volume de leitura era bastante intenso, bem como o de estudo, como ela afirmava que estudar era uma espécie de “matador de tempo”. Contabilizei vários títulos que vão desde a leitura da Bíblia até um livro proibido cujo título é sugestivo chamado: Gentlemen, wives and servants.
Talvez contemplar a natureza em momentos tão críticos como os que ela vivia tenha sido uma forma de escapismo, que funcionava bem juntamente com o ato de estudar. Hoje, em proporções menores, pois não vivemos uma guerra declarada, a natureza para mim surge como uma válvula de escape diante desse nosso Brasil, planeta. Então, ao “[...]olhar o céu, as nuvens, a lua e as estrelas realmente faz com que eu me sinta calma e esperançosa. É um remédio muito melhor do que valeriana ou brometo. A natureza faz com que eu me sinta humilde e pronta para enfrentar cada golpe com coragem.” (FRANK, 2013, p.350)...
Suspeito que a impressão delineada aqui, poderia se tornar algo mais robusto, com mais cara e força acadêmica... Mas, mesmo parecendo que esta era a intenção , o objetivo de ter iniciado esta escrita foi a sensação de reconhecimento , e como alguém já afirmou a literatura é reconhecimento, é aquela vida paralela a sua que de repente se alinha a sua e lhe diz com violência: -Mãos ao alto, o que você é agora, depois de mim?

FRANK, Anne. O diário de Anne Frank. Trad. Ivanir Alves Calado.Rio de Janeiro: Best Bolso, 2013.
Naiana Pereira de Freitas, junho de 2017. 



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